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CLÉRIO JOSÉ BORGES DE SANT´ANNA                                             VOLTAR

O Clube dos Poetas Trovadores Capixabas, CTC foi fundado por Clério José Borges com base numa idéia do escritor Eno Theodoro Wanke. O CTC hoje é sucesso mundial!


HAICAI & TANKA

A POESIA
DE ORIGEM JAPONESA



INTRODUÇÃO AO HAICAI



HAICAI é uma pequena composição poética japonesa, em que se contam as variações da natureza e a sua influência na alma do poeta. Consta de dezessete sílabas, divididas em grupos de (cinco, sete, cinco).
                                               (Michaelis: Moderno dicionário da Língua Portuguesa, 1998, Companhia Melhoramentos, p. 1068).

Exemplo:

Nas trevas da noite,
Galhos que rangem caindo
Ao peso da neve.

(Bashô - Palhas de Arroz)
Na foto imagem do Poeta Matsuo Bashô, em Yamadera, Japão.



O primeiro haicai japonês escrito no Brasil é de autoria de Shuhei Uetska (1876 - 1935). Encarregado de conduzir os primeiros imigrantes, pelo hoje histórico navio Kasato Maru, que ancorou no Porto de Santos em 18. 06. 1908, foi um bom poeta de haicai e compôs o poema abaixo logo ao pisar em terras brasileiras, acompanhado por 793 compatriotas que vinham para nossa terra em busca de uma vida melhor.

A nau imigrante
Chegando: Vê-se lá no alto
A cascata seca.

Onze anos depois, em 1919, Afrânio Peixoto publicou em seu livro "Trovas Populares Brasileiras", 05 haicais e compara a trova brasileira com o haicai japonês.

Em 1926, Wenceslau de Moraes publicou "Relance da Alma Japonesa", o segundo livro que publicava haicais no Brasil.

Mas, só em 1933, Waldomiro Siqueira Júnior publicou o primeiro livro exclusivamente de haicais "HAI - KAIS".

Afrânio Peixoto, Guilherme de Almeida, Haroldo de Campos, Millôr Fernandes, Paulo Leminski e Luís Antônio Pimentel, encabeçam a lista dos iniciadores do haicai no Brasil.

Na poça de lama
Como no divino céu
Também passa a lua.
Afrânio Peixoto.

Haicai Guilhermino com rima e título.

Infância

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
Chama-se agora.


Luiz Antônio Pimentel nascido em 1912, ainda compõe haicais.

Que é um haicai?
É o cintilar das estrelas
Num pingo de orvalho!

COMPOSIÇÃO DO HAICAI

A composição do haicai como é praticada hoje, é resultado do "haicai do renga", muito usada antes de Bashô. Era um poema coletivo em que um poeta compunha a primeira estrofe (hokku), um terceto de 5-7-5 (sons). Em seguida, outro poeta compunha a segunda estrofe, um dístico de 7-7 (sons). Assim, após cada terceto escreviam um dístico, atingindo a centenas. Levavam anos para completarem o poema. Não havia pressa em concluí-lo.


RENGA - vários autores

Chegada do outono
Aquelas nuvens de chuva .
Passarão ligeiras.

José Marins

Depois de uma semana
Um céu azul profundo.

Pichorim


No século XVII, Bashô que nasceu em 1644 em Ueno, pequena cidade japonesa da província de Iga, fez escola e consolidou o haicai, esta poesia essencialmente sintética, muito popular no Japão. Porém, a poesia mais popular é a "Tanka" de 31 sílabas.



Matsuo Bashô

  Matsuo Bashô, poeta japonês do século XVII. Ex-samurai que se tornou monge e escreveu belos poemas. Trouxe à forma poética Haicai, considerada a menor do mundo, valores do zen-budismo, Bashô é considerado o pai do Haicai.

            O haicai é fruto do “haikai no renga” (ou tanka), muito em voga antes e na época de Bashô, que nada mais era do que um poema seqüencial, em que um poeta compunha a primeira estrofe (hokku), um terceto com 5/7/5 sílabas (ou sons). Os poemas naquela época (tanka/waka) eram apenas cantados ou declamados. Não havia poemas escritos.

            Em seguida, vinha outro poeta, que o completava, compondo a segunda estrofe; um dístico, com 7/7 sílabas (ou sons). E as estrofes iam se sucedendo espontaneamente, chegando a centenas. É claro que isso não se dava em um só dia. Um “haikai no renga”, para ser completado, levava anos, pois também não havia, por parte dos que o compunham, o que chamaríamos de “ansiedade” em vê-lo concluído, em dia e hora certos.

            Sendo o hokku “a partida”, para o desenvolvimento de um longo poema, era ele que estabelecia “a cor”, “o matiz” ( o assunto) para o restante a encadear, ou simplesmente o argumento principal.

            Embora iguais na forma, há uma significativa diferença entre “haikai no renga” e “tanka” (ou waka). O primeiro é composto por dois poetas, ou seja, um compõe o “hokku”, que é a estrofe inicial, e outro vate compõe a derradeira estrofe (estrofe seguinte), um dístico de 7/7 sílabas. No caso do “tanka”, o poema (mesmo igual ao antecedente) é composto por um único poeta (as duas estrofes). Em palavras mais claras: - o “tanka” é produção individual, enquanto o “Renga-Haikai” é produção coletiva.

            Dizíamos anteriormente que o “haikai no renga” (conhecido na época simplesmente por haikai) era muito extenso. Uma centena de estrofes denominava-se hyakuin; um milhar, senku. Por uma questão de gosto ou preferência, Bashô era adepto do KASEN, um encadeamento de apenas 36 estrofes (do haikai no renga).

            Trocando tudo isso em miúdos, como apregoa o bom povo, na tentativa de sermos entendidos até por uma criancinha de colo, tornaríamos a explicar que o “haikai no renga” era formado distintamente por duas estrofes, sendo o “hokku” (centrado sempre no kigo) a inicial ou superior, intitulada “Kami no ku”, em três versos (5/7/5) e a inferior, “Shimo no ku”, uma dupla de 7/7, que é a estrofe terminal, também denominada “Matsu no ku”. Outro dado que gostaríamos de deixar bastante claro é que o “tanka” não tem (ou não exige) referência à natureza ou sazonalidade (embora isso casualmente possa acontecer). Está centrado no social ou nas paixões humanas (atributos/qualidades).

            Reza a tradição que o mais antigo exemplo de haikai escrito, de que se tem notícia, tem como autor o poeta Fugiwara-no-Sadaye (1162-1242), que viveu no tempo do imperador Gotoba (1180-1239), cujo texto é o seguinte:

 

“Espalhadas flores

quer pegar e pega apenas

o vento de chuva.”

 

            -Consta que o primeiro haicai produzido no Brasil é de autoria de Shuhei Uetska (1876 - 1935), escrito momentos após desembarcar no porto de Santos, em 18.06.1908, do navio Kasato Maru, que trazia os primeiros imigrantes japoneses (793) para o nosso país. Eis o poema:

 

“A nau imigrante

chegando: vê-se lá no alto

a cascata seca.”



DEFININDO O HAICAI

            É um poema universal, já que canta a natureza através do kigo. O que identifica ou caracteriza o haicai é justamente o kigo (a pronúncia correta é kìgo), “termo ou palavra de estação”.

            O kigo é representado por meio de um vocábulo, uma frase ou uma expressão (no poema), ou ainda pelo “colorido” das imagens, emoções ou sensações que o mesmo encerra, de acordo com os conhecimentos do poeta e do seu talento ou mesmo de sua vivência, nesse campo.

            A concepção hodierna de haicai, em nosso país, é a de que se trata de um poema breve, escrito em tercetos, onde uma palavra ou expressão nos remete à estação do ano: mas não basta essa conformação para que o produto final, em três versos, possa ser considerado um haicai perfeito. O kigo deve representar o “aqui” e o “agora”, como o “flash” de uma máquina fotográfica, que capta e fixa uma imagem de um determinado momento do tempo. É aquilo e pronto! O haicai, finalmente, é um canto de louvor à natureza.

            Por ser um poema conciso, devemos evitar, na sua contextura, o raciocínio, idéias pré-concebidas ou conclusões. Nele não há espaço para a razão. É simplesmente POESIA.

            Outro fator importante que podemos abordar é que o haicai não é um poema pequeno. Casualmente sua estrutura é desse porte. Ninguém o “imagina” de um modo “extenso” e depois vai polindo, os versos, até que alcancem a marca das cinco/sete/cinco sílabas (ou sons).

            Como forma literária, para esse caso, não deverá haver termo de comparação. O haicai “nasce” (assim) espontaneamente. Como não se diz que uma rosa é grande e um miosótis, pequeno. “Ele é o que é”.

            A poesia do haicai ou se realiza ou não se realiza. Se não se realiza, o produto final é um lindo poema, porém não pode ser considerado haicai. Essa é a opinião de vários mestres (atuais) do haicai.

HAICAI NO BRASIL

            Com raras exceções, entrando aqui os grupos de São Paulo (capital) e Santos, não se pratica, no Brasil, um haicai que chamaríamos de autêntico. Por ignorância ou mesmo por preguiça, a maioria busca o mais fácil, ou seja, amontoar três versinhos, uns sobre os outros, e, muitas vezes, perfeitamente metrificados. Compõem um terceto, mas não um haicai.

            O haicai deve ser tratado, poema que é, como um todo. Uma somatória de dezessete sílabas (ou sons), distribuídas em três versos, com uma delicada mensagem sobre a natureza, indicada pelo kigo (estação do ano). Mas tudo isso sem exageros. No haicai devemos evitar grandes explicações, metáforas preciosíssimas, títulos ou rimas. O haicai é simples, do povo. Nasceu e deverá continuar assim. É claro que o poeta, vez por outra, tem o direito de extrapolar tudo isso, pois é ele quem tem vida, inspiração. Mas se o seu desejo é a prática do haicai (autêntico) de Bashô, os modelos (ou normas) estão ao alcance de qualquer um. Afinal de contas, existem leis para tudo e o haicai não é uma exceção.

            Alguns sabichões andam por aí inventando (cada um diz o que quer) que possuindo o japonês uma escrita ideográfica (?), diferente da nossa, é impossível conciliar o número de sons desse idioma com o número de sílabas, na língua portuguesa. Enganam-se. Se o alfabeto nipônico é completamente estranho ao nosso, sua pronúncia é idêntica... e eu diria quase igual. Podemos ler textos em português, com os sons japoneses, que eles entenderão no ato.

            Saber metrificar não é coisa do passado, pois a metrificação é “apenas” um recurso “a mais” que a poesia nos oferece. Um toque de ternura, nas mãos do poeta. E metrificar não é tão difícil como se possa imaginar, pois “até eu” consegui aprender.

            Todo poeta que deseja ser completo necessita estar familiarizado com a metrificação. No exterior, todos os poetas metrificam. A implicância, me parece, é só no Brasil.

            Vocês já imaginaram um compositor que não sabe música? Um pintor que desconhece rudimentos sobre tintas e matizes? Um escultor que não dá a menor “pelota” para a forma? Quanto mais pudermos aprender sobre a arte que abraçamos, mais haveremos de nos desenvolver nela e de colher seus apetecidos frutos. Ser poeta pelas metades é “caretice”.

            Mas, como dizia no início deste capítulo, o que se faz (mais) no Brasil, no momento, é escrever tercetos. E para escrever tercetos não precisa saber nada sobre Bashô, Issa, kidai ou kigo. Se souber, melhor. Mas escrever tercetos também é válido. Só não estaremos praticando o haicai, que, como disse folhas atrás, é coisa bem diferente.

OUTRAS FORMAS DE EXPRESSÃO JAPONESAS

Além do terceto, que não dispõe de regras para a sua elaboração e pode ser escrito por qualquer pessoa, não necessitando nem mesmo ser poeta, informaríamos da existência do senryu (ú), outra forma poética de expressão que está sendo bastante praticada, no momento, no mundo inteiro, incluindo o Brasil. E, verdade seja dita, poemas muito bonitos, mas que apesar de seus pontos positivos não são haicais. O senryu é um “parente chegado” do haicai. Consta que vem do “centro” do “haikai no renga”, enquanto o haicai, propriamente dito, é a sua primeira estrofe (hokku).

            No Japão, o “senryu” é praticado por trabalhadores e mesmo executivos. São versos leves e circunstanciais, que falam do cotidiano e expressam as condições de vida do japonês moderno. O importante, no senryu, é a mensagem (cômica, irônica, satírica).

            O “senryu”, a princípio, era uma das mais conhecidas formas de “zappai” (forma cômica). Hoje, seu sentido evoluiu.

            Vejam alguns exemplos de senryu e poderão notar que é um poema que agrada e mesmo empolga, se bem escrito, embora não seja haicai:

 

“Passar o fim de semana

como perfeitos estrangeiros, ou quem são

minha mulher e meus filhos?”

            Tudo isso em função da triste situação de um chefe de família japonês, continuamente longe de casa, distante de seus entes queridos, em busca do ganha-pão. Um tipo muito encontrado no Japão de hoje é o “tashin-funin”, o “solitário transferido”.

            Alguns casamentos chegam ao divórcio (separação) devido a esse estado de coisas. O “senryu” abaixo reflete melhor todo esse drama nipônico:

“Um envelope na caixa do correio.

De uma namorada?

Não, de meu filho.”

 

            Eis aí uma mostra amarga do que existe hoje no Japão... e talvez no mundo inteiro, que se reflete até na literatura. E essa “coisa ruim” já se implantou também no Brasil. O senryu, não. O problema social.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS
SOBRE O ASSUNTO

            Ninguém poderá dizer, com a máxima certeza, o que seja um haicai BOM. Desde que ele siga os preceitos deixados pelos poetas tradicionais, será sempre um haicai. Particularmente, devo deixar aqui transcrito que no haicai deve existir sempre a noção de sinceridade (makoto); a expressão de uma realidade condizente com a verdade interior do poeta.

            Um artifício bastante utilizado na composição do haicai é o “kireji”, que não possui explicações, em nosso idioma. É uma maneira “sui generis” de se expressar, do povo japonês, mais ou menos assim: ah! oh!, etc. Para identificá-lo, geralmente usamos um travessão, numa rápida mudança do assunto que está sendo tratado, no poema.

            Onji seria a somatória dos dezessete sons ou pausas do haicai.

            Kidai é o tema do haicai.

            Kigo é o vocábulo (palavra, frase ou expressão) que simboliza ou representa um elemento da natureza – referência sazonal. Muitas vezes, kigo e kidai se confundem no poema. Mas seria entrar em pormenores e “delicadezas”, que poderiam trazer maiores confusões ao leitor.

            Muito mais teríamos ou poderíamos aqui expressar, sobre essa pérola nipônica. Não o faremos para não tornar este assunto extenso e maçante. Nem tivemos a intenção de exaurir o tema. Trata-se, este pequeno estudo, de uma singela orientação ao haicaísta iniciante, que verá nele uma espécie de primeiro degrau para o desenvolvimento de seu aprendizado, sobre esse poema.

 

 

GLOSSÁRIO SOBRE KIGO

 

VERÃO

 

Ano-novo, barata, guarda-sol, alamanda (flor), chuva de granizo, noite de verão, vaga-lume, piracema, traça, cigarra, pernilongo, lua de verão, aranha, minerva (flor), melancia, jaca, trovão, jacaré, rosa, Natal, abóbora madura, campânula (flor), caracol, caranguejo, carnaval, fantasia (de carnaval), flamboyant, flor de maracujá, garça, hortênsia, lagarta, manga, mariposa, samambaia, sapo, vestibular, trigal amarelo, etc.

 

INVERNO

 

Cobertor, tosse, inverno, rosa de inverno, árvore de inverno, garoa, nevoeiro de inverno, manhã de inverno, balão, cipó-de-são-joão, fogueira, frieza, suinã (árvore com flores vermelhas), noite fria, rio minguante (com pouca água), camélia, mar de inverno, mosca de inverno, pitanga, agasalho, casaco, chuva fria, frente fria, planura seca, salsão, fogos de artifício, etc.

PRIMAVERA

 

Flor (de um modo geral), beija-flor, ipê, jacarandá, rã, campo de primavera, pipa, lua enevoada, borboleta, sibipiruna, plantio (época de), rio de primavera, mar de primavera, lua vernal, dia da criança, dia de finados, araponga, bem-te-vi, jabuticaba, abelha, balanço, canário, dia da árvore, poda, quadrado, sabiá, semana da pátria, viuvinha (flor), ninho de pássaros, etc.

 

 

OUTONO

 

Espatódea (flor), orvalho, libélula, outono, lua cheia, folha de outono, vento de outono, estrela cadente, relâmpago, nuvens de outono, céu de outono, colheita de arroz, campo de outono, espantalho, crepúsculo outonal, folha vermelha, dia das mães, flor de maio, grilo, crisântemo, arara, paineira, caqui, arapuca, bruma, caxinguelê, colheita de uva, crista-de-galo (flor), luar, neblina, pica-pau, 1º de abril, quiabo, trote, etc.

 

Obs: Alguns kigos são comuns a várias estações.

Texto de Humberto Del Maestro, Poeta Trovador, Haicaista, Escritor Capixaba, membro da Academia Espirito-santense de Letras


HAICAIS DO HUMBERTO

 

Meio-dia quente.

Borboletas e alamandas

descansam nas cercas.

 

Depois do aguaceiro,

a noite tornou-se cheia

dos sons da lagoa.

 

A chuva termina,

mas as folhas dos arbustos

se enfeitam de pérolas.

 

O vento passeia

com suas botas molhadas

na tarde de chuva.

 

É manhã de calma..

Coleiros, em plena festa,

gorjeiam no campo.

 

O sol está forte

e o baile das borboletas

continua intenso.

 

Levanto assustado...

A chuva, na madrugada,

me acorda cantando.

 

Manhã de alegria...

Nos laranjais do caminho,

abelhas trabalham.

 

É noite de chuva.

A goteira na cozinha

perturba meu sono.

 

O mar está calmo.

A longa yellowe de arrasto

vem vindo de manso...

 

A noite é de prata.

O chuveiro das estrelas

me banha de sonhos.

 

Cartão de Natal

entre mil papéis antigos...

-Lágrimas nos olhos.

 

Canário fogoso,

uma arapuca sem pressa...

-Silêncio na mata.

 

Noitinha, céu lindo!

Lençóis de seda rosada

flutuam no espaço.

 

Geada inclemente!

Nas pradarias e estradas,

tapetes branquinhos.

 

Varanda sombreada

com brisas quentes da tarde.

-Bailam samambaias!

 

Pasto abandonado.

Entre matos e espinheiros,

paineira florida.

 

Tarde delicada.

Adormecidas na pérgula,

lágrimas-de-cristo.

 

Vendaval de inverno.

A velha ovelha vadia

vagueia no vale.

 

É manhã de chuva.

Abro a janela sem jeito...

Mil beijos molhados.

 

Vai-se embora o frio.

Nos arvoyellowos da rua,

bem-te-vis cantando.

 

Tarde muito quente.

Na janela da cozinha,

moringa gelando.

 

Casa perfumada.

No velho tacho dourado,

ferve a goiabada.

 

Jardim enfeitado

em tardes ensolaradas:

-Brincos-de-princesa!

 

O calor nos deixa.

No chão do velho jambeiro,

tapetes lilases.

Os Haicais acima são de autoria do Escritor e Haicaista, Humberto Del Maestro



HAICAIS DE GUILHERME DE ALMEIDA

 

Os Meus Haicais
(Extraídos do livro Poesia Vária)

 

O PENSAMENTO

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.

 

HORA DE TER SAUDADE

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

 

CARIDADE

Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.

 

SILÊNCIO

Uma tosse rouca,
Lã male. O "store" que bole,
A noite opaca e oca.

 

A INSÕNIA

Furo a terro fria.
No fundo, em baixo do mundo,
trabalha-se: é dia.

 

MOCIDADE

Do beiral dacasa
(ó telhas novas, vermelhas!)
vai-se embora uma asa.

 

HISTÓRIAS DE ALGUMAS VIDAS

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passasem parar.

 

INFÂNCIA

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

 

LEMRANÇA

Confete. E um havia
de se ir esconder, e eu vir
a encontrá-lo, um dia.

 

O POETA

Caçador de estrelas.
Chorou: seu alhar voltou
com tantas! Vem vê-las!

 

CIGARRA

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

 

GAROA

Por um mundo quase
oéreo, há um vago mistério.
Passa o Anjo de Gaze.

 

CIGARRO

Olho a noite pela
vidraça. Um beijo, que passa,
acenda uma estrela.

 

NÓS DOIS

Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um vôo.
"Sou céu!" disse o chão.

 

CONSOLO

A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

 

VELHICE

Uma folha morta.
Um galho, no céu grisalho.
Fecho a minha porta.

 

CHUVA DE PRIMAVERA

Ve como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.

 

MEIO-DIA

Sombras redondinhas
Soldados de pau fincados
sobre rodelinhas.

 

NOTURNO

Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.

 

MERCADO DE FLORES

Fios. Alarido.
Assaltos de pedra. Asfaltos.
E um lenço perdido.

 

N. W.

Dilaceramentos.
Pois tem espinhos também
a rosa-dos-ventos.

 

EQUINÓCIO

No fim da alameda
há raios e papagaios
de papel de seda.

 

O SONO

Um corpo que é um trapo.
Na cara, as pálpebras claras
são de esparadrapo.

 

JANEIRO

Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

 

DE NOITE

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

 

QUIRIRI

Calor. Nos tapetes
tranqüilos da noite, os grilos
fincam alfinetes.

 

PASSADO

Esse olhar ferido,
tão contra a flor que ele encontra
no livro já lido!

 

FILOSOFIA

Lutar? Para quê?
De que vive a rosa? Em que
pensa? Faz o qué?

 

UM SALGUERIO

A asa. A luz que pousa.
O vento... É o estremecimento
vão por qualquer cousa.

 

UM RITMO DA VIDA

O berço vai e vem.
Mas vai com a quê? – Um ai.
E vem? – Sem ninguém.

 

OS ANDAIMES

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

 

TRISTEZA

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?

 

PERNILONGO

Funga, emaranhada
na trama que envolve a cama,
uma alma penada.

 

PESCARIA

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

 

OUTONO

Sistema nervoso,
que eu vi, da folha sorvida
pelo chão poroso.

 

VENTO DE MAIO

Risco branco e teso
que eu traço a giz, quando passo.
Meu cigarro aceso.

 

FRIO

Neblina? ou vidraça
que o quente alento da gente,
que olha a rua, embaça?

 

OUTUBRO

Cessou o aguacerio.
Há bolhas novas nas folhas
do velho salguerio.

 

O BOÊMIO

Cigarro apagado
no canto da boca, enquanto
passa o seu passado.

 

FESTA MÓVEL

Nós dois? - Nao me lembro.
Quando era que a primavera
caía em setembro?

 

ROMANCE

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas maos nas minhas.

 

O HAIKAI

Lava, escorre, agita
A areia. E, enfim, na bateia
Fica uma pepita.

 

NOROESTE

Dilaceramentos...
Pois tem espinhos também
A rosa-dos-ventos.

 

Haicais da colina
(Poemas extraídos do livro O Anjo de Sal)

 

PACAEMBU

Chuva e sol. Repara
nas giestas atrás das frestas
das persianas claras.

 

PROGRESSO?

Enorme canhão,
o arranha-céu acompanha
o vôo do avião.

 

CARRILHÃO

Assusta-se e foge o
enorme tempo que dorme
no velho relógio.

 

SABEDORIA

Uma ave, poisada
no pára-raio, olha para
o céu. E há trovoada.

 

INTERIOR

Havia uma rosa
no vaso. Veio do ocaso
a hora silenciosa.

 

BOLHA DE SABÃO

Dirás, quando a vires:
"A bola de vidro rola
debaixo do arco- íris".

 

POETAS

Tive uma irmã gêmea.
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvenzinha boêmia.

 

Seis haicais para campos do jordão
(Poemas extraídos do livro O Anjo de Sal)

 

CAMPOS DO JORDÃO

Vão duas meninas
de suéter de lã. Cheira a éter.
Ondas de colinas.

 

O "LOGO DAS HAICAIS"

Esvoaça a libélula.
Esponja verde. Uma concha.
O logo é uma pérola.

 

MARCHA NUPCIAL

Ventos leves bolem.
Têm lerdos gestos os cedros
ao vôo do pólen.

 

ÁRVORES NO OUTUBRO

Na casca, a ferida
é como mercurocromo.
A folha esquecida.

 

PRESSENÇA

Hora sem ninguém.
No manso ondear do balanço
de lona está alquém.

 

Três haicais (de Bashô)
(Traduçôes publicadas no livro acaso)

 

I.

O vento do inverno
assopra. Acendem-se e piscam
os olhos dos gatos.

 

II.

Quimonos secando
ao sol. Ah! a manga pequena
do menino morto.

 

III.

Ah! o antigo açude!
E quando uma rã mergulha,
o marulho da água.

 

Bibliografia

Almeida, Guilherme – Poesia Vária, São Paulo, Editora Cultrix, 1976

Almeida, Guilherme – Toda Poesia – Guilherme de Almeida, São Paulo, Livraria Martins, Editora, 1952

Almeida, Guilherme – O Anjo de Sal, São Paulo, Alarico, 1951

Almeida, Guilherme – Acaso: versos de todo tempo. São Paulo, Editora Nacional, 1938

Pereira Filho, Genésio – Haikai, Poesia de Estação, São Paulo, Gazeta Magazine, 1941

Almeida, Guilherme – Os meus haicais, São Paulo, O Estado de S. Paulo, 1937

 

Obras de Guilherme de Almeida publicadas

"Acaso" – 1924 a 1928. Guilherme publica "Três Haicais" (de Bashô)

Os meus haikais – 1937. Artigo assinado no "Estado de S. Paulo"

"Poesia Vária" – 1944 a 1947. Guilherme publica Os meus haikais

A entrevista com Genésia Pereira – 1941, na "Gazeta Magazine"

O Anjo de Sal – 1949-1951. Guilherme Publica "Haikais da Colina e Haikais para Compos da Jordão".

 


OBSERVAÇÃO: Permitimos a livre reprodução do conteúdo e agradecemos a citação da fonte com a inclusão de nosso link, se possível.

Fonte de Pesquisa:
Del Maestro, Humberto - Poeta Trovador, Haicaista, Escritor Capixaba
Borges, Clério José - Livro História da Serra, 1a. 2a. e 3a Edição - 1998, 2003 e 2009 - Editora Canela Verde - À Venda na Livraria Doce Saber, Laranjeiras, Serra ES - Tel.: 27 - 32 81 24 89

Borges, Clério José - Livro Dicionário Regional de Gírias e Jargões - 2010 - Editora Canela Verde - À Venda na Livraria Doce Saber, Laranjeiras, Serra ES - Tel.: 27 - 32 81 24 89






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