Clério José Borges e o Livro origem Capixaba da Trova

ORIGEM CAPIXABA DA TROVA – Livro de Clério José Borges – 2007

ACLAPTCTC Clério José Borges Literatura Livros Livros de Clério José Borges

Autor= CLÉRIO JOSÉ BORGES

Do  Clube dos Trovadores Capixabas – CTC

Do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo

Da  Academia de Letras “Humberto de Campos”

Da  Federação Brasileira de Entidades Trovistas – FEBET

Da  Academia de Letras e Artes da Serra – ALEAS

Cidadão Serrano, Título conferido pela Câmara Municipal

(Esta Biografia é de 2007. Biografia atualizada no final.)

Livro Origem Capixaba da Trova de Clério José Borges de Sant Anna
Livro Origem Capixaba da Trova de Clério José Borges de Sant Anna.

ORIGEM

CAPIXABA

DA

TROVA

COLEÇÃO NEOTROVISMO CAPIXABA

CLUBE DOS TROVADORES CAPIXABAS – CTC

2007

Os originais  desta obra encontram-se arquivados na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.

Impresso no Brasil

Depósito Legal na Biblioteca Nacional conforme Decreto N.º  1.825, de 20 de dezembro de 1907.

ORIGEM CAPIXABA DA TROVA 

Coleção Neotrovismo Capixaba  — Volume 1.

1º Edição: Lançamento de 04 a 07 de Outubro de 2007.

© Copyright de Clério José Borges de Sant’Anna – Rua dos Pombos, 2 – Eurico Salles, Carapina – Serra – ES – Brasil  – Cep: 29160 -280  

Tel.: ( 027 ) 3328 07 53

Todos os direitos reservados ao autor. Proibida a reprodução sem a expressa autorização, por escrito, do autor, sujeitando-se os infratores às sanções previstas em lei.

Trechos poderão ser copiados para trabalhos de pesquisa e escolares, desde que seja citada a presente obra.

                 FICHA CATALOGRÁFICA

         981.522        Borges, Clério José, 1950 –

                                      ORIGEM CAPIXABA DA                                              TROVA – Coleção                                                     Neotrovismo Capixaba.

                                      Editora do CTC. – 1997.

                                      p. 70            :il.

                                      1- Literatura Brasileira –                                             História.

                                      2- Espírito Santo ( Estado ) –                                                História.

                                      I – Título

                                                         CDU 981.522

APRESENTAÇÃO

         Por mais que se produzam documentos, pesquisas e livros sobre Cultura e Movimentação Cultural de um povo, sempre há mais alguma coisa importante a se destacar.

          No Espírito Santo poucas ainda são as publicações que relatam a história de um Movimento Poético tão bonito, como o Movimento que conta a história daqueles que reunidos em nome da Trova, agitaram em determinado período o mundo cultural de uma cidade e de um Estado.

         Os livros e as pesquisas possibilitam que outras gerações possam conhecer as atividades que foram praticadas no passado. Assim, Poetas, Trovadores, Professores e Estudantes podem avaliar a importância que era dada a Trova. Podem assim analisar o ato de alguns preencherem suas horas de lazer, horas destinadas ao divertimento, em reuniões ou Seminários, discutindo ou falando de poesia e de Trovas.

         Se livros não forem feitos e documentos não forem transcritos, as realizações, os atos e eventos se perderão  no esquecimento.

         Com este livro “Origem Capixaba da Trova”, o autor pretende iniciar uma série de obras relatando aspectos diversos do Movimento do Neotrovismo, com transcrições de documentos, artigos de jornais e trechos de cartas, ano por ano,  até os dias atuais.

         Um trabalho de fôlego, facilitado pela preocupação que o autor teve em arquivar tudo que recebeu nos últimos vinte e sete anos de fundação do CTC – Clube dos Trovadores Capixabas, desde Cartas até recortes de jornais.

         Este é o nosso “hobby”. O nosso entretenimento. O nosso lazer.

         A Trova faz amigos. Axé.

                            Clério José Borges.

PREFÁCIO DE ENO TEODORO WANKE

Acho preciosa esta idéia de Clério, dando a público mais um livro sobre a história da trova, com ênfase no Espírito Santo.

Recentemente, em maio de 1966, no Segundo Congresso de Brasília, tivemos Clério, eu e todos os trovadores presentes, a satisfação de constatar a surpresa do professor universitário Henryk Siewierski, de nacionalidade polonesa, com a riqueza da história desta forma de poesia milenar ibérica — e tive particularmente a alegria de vê-lo fazer uma conferência sobre trovas baseada quase que exclusivamente em meus estudos, feitos na década de 1960 e 1970.

Gastei doze anos de minha vida percorrendo livros e mais livros, alguns bastante empoeirados e antigos, desde a época medieval até os dias de hoje, e pouca satisfação tenho tido por esse esforço que, visto de hoje, reconheço sem falsa modéstia, ter sido bastante profunda e completa. Produzi os quatro maiores volumes da minha obra, tanto em número de páginas como, acredito, em importância para a história da nossa literatura.

Acontece que o estudo caiu no vazio. Tanto faz que tenha sido realizado ou não. Minhas descobertas jamais foram tomadas em consideração nos meios universitários e cultos do país. E não foi por falta de os livros estarem à disposição dos estudiosos, pois todas as bibliotecas de todas as universidades nacionais os receberam. Clério, como verão em sua narrativa, tomou conhecimento deles na biblioteca da Universidade Federal do Espírito Santo.

Por isso, saúdo com alegria toda vez que alguém se dispõe a utilizar minhas pesquisas para, dando um toque pessoal, produzir mais um livro em torno desta forma tão aparentemente fácil, mas na verdade “tão difícil de fazer” — como sabia Adelmar Tavares, o grande trovador cuja biografia elaborei com tanto prazer. A trova de Adelmar é:

Ó linda trova perfeita,

que me dá tanto prazer!

Tão fácil, depois de feita,

tão difícil de fazer!

O Capixaba Clério José Borges esboça primeiro as origens da trova-quadra, cujos primeiros documentos literários aparecem num trovador medieval, o rei de Castela, D. Alfonso X, em seu livro Cantigas de Santa Maria.

Não confundir a trova medieval — sinônimo apenas de poesia metrificada — com a nossa trova-quadra — que, para baralhar as coisas, recebeu o mesmo nome derivado — apenas o nome — da trova medieval. Se a trova tivesse nascido na época medieval, não teria mil anos de existência, mas sim apenas 800 ou pouco mais.

Na realidade, há indícios, através da literatura árabe daquele tempo, de que a trova-quadra já vivia, já era cultivada no século X (ou seja, em novecentos e tanto) na Península Ibérica dominada pelos mouros.

Depois Clério dá algumas informações sobre a trova nestes seus mil anos de caminhada através dos tempos. Os últimos capítulos são a parte mais importante deste trabalho, a contribuição pessoal do autor, que mostra a importância do Estado do Espírito Santo tanto no reino da trova folclórica, como na trova literária.

Daí porque este livro me deixa satisfeito, e tenho o prazer de saudar este Clério José Borges, incrível e incansável, que já conseguiu, até o momento, organizar e realizar nada menos de 19 Seminários Nacionais da Trova. Parabéns e longa vida para o Clério, e parabéns principalmente para nós, seus leitores e admiradores.

Em Julho de 1999.

Eno Teodoro Wanke

Presidente de honra da FEBET

Federação Brasileira de Entidades Trovistas.

OBS.: Eno fez o Prefácio em 1999, quando havíamos realizados 19 Seminários Nacionais da Trova. Até os dias ayuais, Outubro de 2007, realizamos 20 Seminários e cinco Congressos Brasileiros de Poetas Trovadores no Espírito Santo.

I

DEFINIÇÕES E ORIGEM DA TROVA

         Trovador é uma palavra derivada do latim, acusativo singular de “trobaire” (poeta), do verbo trobar (inventar, achar). Todo trovador é poeta, mas nem todo poeta é trovador, pois nem todos Poetas sabem metrificar, fazer o verso medido. É como a classe médica. Há os Clínicos Gerais e os Cardiologistas. Todos são médicos mas só alguns são Cardiologistas.

         A trova possui o seu conceito plenamente estabelecido: É o poema de quatro versos setessilábicos com rima e sentido completo. Mas, quando surgiu, não era assim. Seu aparecimento está intimamente ligado à poesia da Idade Média, onde a trova era sinônimo de poema e letra de música. A cultura trovadoresca refletia bem o panorama histórico desse período: as Cruzadas, a luta contra os mouros, o feudalismo, o poder espiritual do clero. Quanto à arquitetura, o estilo gótico é o que predominava. Na literatura, desenvolveu-se, no sul da França e em Portugal, um movimento poético chamado Trovadorismo. Os poemas produzidos nessa época eram feitos para serem cantados por poetas e músicos, e foram os primeiros a serem sistematicamente publicados.

         Hoje, entretanto, a trova possui a sua conceituação própria, diferenciando-se da quadra e da poesia de cordel, da Trova Gauchesca, do Repente, bem como do poema musicado da Idade Média. Um movimento cultural em torno da trova surgiu no Brasil a partir de 1950 e chamou-se Trovismo. A palavra foi criada pelo poeta e político falecido J. G. de Araújo Jorge e pelo escritor e historiado, Eno Theodoro Wanke.

         Em 1960, foram realizados os Primeiros Jogos Florais, com sucesso, e a fundação oficial da União Brasileira de Trovadores, juntamente com uma plêiade de idealistas do Rio de Janeiro.

         O Dentista Gilson de Castro é considerado o maior divulgador da Trova nos anos 50 e 60. Usava o pseudônimo de Luiz Otávio. Era carioca, nascido em 18 de Julho de 1916 e deixou o seu nome inscrito nas páginas literárias desse país como o Príncipe dos Trovadores Brasileiros, pelo seu trabalho incessante e gigantesco em prol da causa da trova. No dia 31 de Janeiro de 1977, Luiz Otávio, alçou vôo para a eternidade.

         Em 1980, ao criar o Clube dos Trovadores Capixabas, o poeta Clério José Borges fez despontar o Neotrovismo, que é a renovação do movimento em torno da Trova no Brasil.

            Trovismo: Movimento cultural em torno da Trova no Brasil, surgido a partir de 1950. A palavra foi criada pelo poeta e político falecido J. G. de Araújo Jorge. O escritor Eno Teodoro Wanke publica em 1978 o livro “O Trovismo”, onde conta a história do movimento de 1950 em diante.

            Neotrovismo: É a renovação do movimento em torno da Trova no Brasil. Surge em 1980, com a criação por Clério José Borges do Clube dos Trovadores Capixabas. Foram realizados 20 Seminários Nacionais da Trova no Espírito Santo e 5 Congressos Brasileiros de Poetas Trovadores. O Presidente Clério José Borges já foi convidado e proferiu palestras no Brasil e no Uruguai. Em 1987 concedeu inclusive entrevista em Rede Nacional, no programa “Sem Censura” da TV Educativa do Rio de Janeiro, ao lado do ator já falecido, Caíque Ferreira e do Cantor Antônio Maria.

DIFERENÇA DE TROVA E QUADRA

         A Trova possui o seu conceito plenamente estabelecido: É o poema de quatro versos setessilábicos com rima e sentido completo. Já Quadra é toda estrofe formada por quatro linhas de uma poesia.

         Assim, não é verdade que Quadra e Trova sejam a mesma coisa e que a Trova evoca mais os Trovadores da Provença Medieval e que a Quadra seria uma forma de se fazer poesia mais moderna. A Quadra pode ser feita sem métrica e com versos brancos, sem rima. Aí então será só uma quadra sem ser a Trova que obrigatoriamente terá que ser metrificada.

TROVA É OBRA DE ARTE, É LITERATURA

Trova, nos dias atuais, é cultuada como Obra de Arte, como Literatura.

A Trova é uma composição poética, ou seja, uma poesia que deve obedecer as seguintes características:

1- Ser uma quadra. Ter quatro versos. Em poesia cada linha é denominada verso.

2- Cada verso deve ter sete sílabas poéticas. Cada verso deve ser setessilábico. As sílabas são contadas pelo som.

3- Ter sentido completo e independente. O autor da Trova deve colocar nos quatro versos toda a sua idéia. A Trova difere dos versos da Literatura de Cordel, onde em quadra ou sextilhas, o autor conta uma história que no final soma mais de cem versos, ou seja, linhas. A Trova possui apenas 4 versos, ou seja, 4 linhas.

4- Ter rima. A rima poderá ser do primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto, no esquema ABAB, ou ainda, somente do segundo com o quarto, no esquema ABCB. Existem Trovas também nos esquemas de rimas ABBA e AABB.

ESCRITOR JORGE AMADO E A TROVA

Segundo o escritor Jorge Amado:

“Não pode haver criação literária mais popular e que mais fale diretamente ao coração do povo do que a Trova. É através dela que o povo toma contato com a poesia e por isto mesmo a Trova e o Trovador são imortais”

Poeta para ser Poeta precisa saber metrificação, saber contar o verso. Se não souber o que é escansão, ou seja, medir o verso, não é Poeta.

Trova é uma composição poética clássica de forma fixa, constante de quatro versos de sete sílabas poéticas, rigorosamente metrificados e rimados. Uma estrofe, qualquer que seja constante de quatro versos chama-se quadra (=quarteto). A trova, portanto é uma quadra, mas nem toda quadra é uma trova. Isso por que, uma quadra para ser trova deve atender as exigências de ter sentido completo e independente, e de possuir as rimas assim esquematizadas: ABSB; ABBA; AABB; e ABCB. A trova mais cultivada é a elaborada com o esquema de rimas ABAB.

DEFINIÇÃO DE POESIA

Poesia é a forma de expressão lingüística destinada a evocar sensações, impressões e emoções por meio da união de sons, ritmos e harmonias, utilizando-se vocábulos essencialmente metafóricos.

A poesia surgiu intimamente ligada à música. As poesias dos aedos gregos e trovadores medievais promoviam a união entre a letra do poema e o som. Ao longo dos anos, este vínculo foi se intensificando, mas houve uma distinção técnica entre a música (que passou a ser escrita em pautas) e a poesia que preservou a rítmica natural, e passou a ser construída por meios gramaticais. Posteriormente, a poesia ganhou fundamentos e regras próprias.

DIFERENÇAS ENTRE POEMA E POESIA

Existe alguma divergência entre o que significa Poema e Poesia. Para efeito geral, considera-se que são sinônimos; mas para a definição acadêmica, Poesia é o gênero de composição poética e Poema é a obra deste gênero.

Para que entendamos melhor, vejamos a definição de Poema segundo o eminente escritor, Assis Brasil:

“Poema é o “objeto” poético, o texto onde a poesia se realiza, é uma forma, como o soneto que tem dois quartetos e dois tercetos, ou quatorze versos juntos, como é conhecido o soneto inglês.

Um poema seria distinto de um texto ou estrofe. Quando essa nomenclatura definitiva é eliminada, passando um texto a ser apresentado em forma de linhas corridas, como usualmente se conhece a prosa, então se pode falar em poema-em-prosa, desde que tal texto (numa identificação sumária e mecânica) apresente um mundo mais “poético”, ou seja, mais expressivo, menos referente à realidade. A distinção se torna por vezes complexa. (…) a poesia pode estar presente quer no poema que é feito com certo número de versos, quer num texto em prosa, este adquirindo a qualidade poema-em-prosa”.

Já Poesia, Assis Brasil define assim:

“(…) uma manifestação cultural, criativa, expressiva do homem. Não se trata de um ‘estado emotivo’, do deslumbre de um pôr-do-sol ou de uma dor-de-cotovelo; é muito mais do que isso, é uma forma de conhecimento intuitivo, nunca podendo ser confundido o termo poesia com outro correlato: O poema”.

DEFINIÇÃO DE VERSO

Verso é cada uma das linhas de um poema. É a unidade rítmica da composição poética. Existem três qualificações de verso: VERSO AGUDO; VERSO GRAVE e VERSO ESDRÚXULO.

Verso Agudo é o que termina em palavra oxítona ou em monossílabo tônico. Exemplos: trenó, luz.

Verso Grave é o verso que termina em palavras paroxítonas. Exemplos: palavra, bonito, capote.

Verso Exdrúxulo é o verso que termina em palavras proparoxítonas. Exemplos: lépido, insípido, súbito, apátrida.

DEFINIÇÃO DE POEMETO

POEMETO é um poema curto. De poemetos, temos belos exemplos, como sejam: O Melro e O Fiel, de Guerra Junqueira, e Juca Mulato, de Menotti Del Picchia.

DEFINIÇÃO DE ELISÃO

ELISÃO é a fusão de duas ou mais vogais no mesmo verso, formando uma sílaba só. Exemplo: Dei-te amor (4 sílabas) = Dei-tea-mor (3 sílabas poéticas).

DEFINIÇÃO DE HIATO

HIATO é o encontro de duas vogais, em sílabas diferentes. Nas frases em que ele ocorre, as vogais não se fundem quando da leitura do verso. Exemplo: Está a falar.

O QUE É E COMO SE FAZ A CONTAGEM DAS SÍLABAS

Na tradição de nossa língua, a contagem de sílabas no verso difere da contagem gramatical das palavras na frase.

Enquanto nesta são consideradas todas as sílabas, no verso ela se processa como se fala, com a absorção de vogais pronunciadas. Em poesia não se contam:

– A última sílaba do verso grave. Exemplo: Na palavra membrana, não se conta a sílaba na;

– As duas últimas sílabas, no verso esdrúxulo. Exemplo: Na palavra prática, não se contam as sílabas ti-ca.

DEFINIÇÃO DE RIMA 

Embora desconhecida na literatura antiga, a rima tornou-se – a partir do início da Idade Média – um elemento fundamental da lírica. Ela reforçava os aspectos sonoros e musicais dos versos, além de estabelecer algumas correspondências de sentido entre eles. A rima nasce de uma semelhança ou de uma igualdade de sons em dois ou mais versos: calor / amor; remédio / tédio; etc. Geralmente, ela se dá no final dos versos, de forma alternada (AB/AB), como nesta estrofe de um poema de Vinícius de Moraes:

Distante o meu amor, se me afigura (A)

O amor como um patético tormento (B)

Pensar nele é morrer de desventura (A)

Não pensar é matar meu pensamento. (B)

As rimas também podem aparecer duas a duas (AA/BB/CC), sendo conhecidas como rimas emparelhadas. Existe também as que ocorrem entre o primeiro e o quarto versos, o segundo e o terceiro (AB/BA), recebendo o nome de rimas entrelaçadas. Há também uma rima interior, quando uma ou mais palavras que coincidem sonoramente estão no interior do verso. Veja-se este exemplo de Fernando Pessoa:

E há nevoentos desencantos

Dos encantos dos pensamentos

Nos santos lentos dos recantos

Dos bentos cantos dos conventos

Prantos de intentos, lentos, tantos

Que encantam os atentos ventos.

Durante o século XVIII, os autores do Arcadismo, em nome dos antigos clássicos, combateram duramente a rima na poesia. Instituiu-se então o verso branco, onde as semelhanças ou identidades de fonemas não apareciam. No século seguinte, a rima ressurgiu com força, em especial nos autores do Romantismo e do Parnasianismo. Já no século XX, ela quase desapareceu diante do verso livre (sem rima e sem métrica), utilizado pela maioria dos poetas contemporâneos.

ORIGEM DA TROVA

A Trova é uma forma poética milenar. Possui mais de mil anos.

         É originária da Península Ibérica. Península é uma porção de terra cercada de água por todos os lados, exceto um, por onde se liga a outra terra. A Península Ibérica fica no Continente Europeu, ou seja, na Europa e, é constituída pelos países Espanha e Portugal.

         Até o século passado, isto é, século XIX, a Trova era exclusivamente popular. Feita pelo povo.

         Os textos em forma de Trova se popularizavam nos cantares da rua, nas serenatas, nos passeios, nas festas de casamento, etc.

         É certo que a Trova nasceu no período da Idade Média.

A Idade Média compreende o período de anos entre a invasão do Império Romano pelos bárbaros, no século V, em 476, até a data da ocupação de Constantinopla pelos Turcos, em 1453, no século XV. Na Antigüidade, vários povos, como persas, gregos, egípcios e romanos, dominaram vastas regiões pela força, através de exércitos e com guerras, construindo imensos Impérios.

            Em 1389, os Turcos então chamados povos bárbaros, já atacavam as províncias orientais e em 1453 ocuparam Constantinopla. Era o fim do Império Bizantino que recebera este nome por estar centralizado na antiga cidade de Bizâncio. Constantinopla passou a chamar-se Istambul, e a religião Cristã foi substituída pela religião dos invasores Turcos, chamada muçulmana ou Islamismo.

         Analisando a poesia das músicas cantadas nas cerimônias litúrgicas, ou seja, nas atividades religiosas, lá pelo século V, o historiador, Eno Teodoro Wanke, acabou descobrindo muitos refrões, já em forma de quadras.

Refrão significa estribilho, ou seja, versos repetidos no fim de um grupo de versos de uma composição poética.

         A Península Ibérica, no século VII fora invadida pelos Árabes. Segundo a Bíblia, os Árabes são descendentes de Ismael, filho de Abraão.

Árabe, significa “aqueles que falam claramente”.

Subdivididos, em princípio, em muitas tribos, a partir do século VII, os Árabes formaram um Império baseado no Islamismo, uma religião fundada pelo profeta Maomé e que tem o Alcorão como livro sagrado de leis.

            O Império Árabe expandiu-se através de feitos militares, chegando a ocupar vasto território em três continentes: Ásia, África e Europa. Os Árabes eram originários da Arábia, região da Ásia. Os Turcos são originários da Turquia, região também da Ásia e cuja extremidade sudeste do território ocupa a Europa. Por professarem uma religião diferente da religião Cristã, os Árabes e os Turcos eram chamados pelos povos Cristãos, como os Bárbaros.

         No século XI, a expansão dos Árabes ia pela Ásia Central Soviética até o noroeste da África e a Península Ibérica.

         Assim o poeta Mocadem, poeta cego, nascido, em 840 da nossa Era, em Cabra, na região espanhola da Andaluzia, foi um dos primeiros a utilizar a Trova popular em estado rude, utilizando-a nos seus escritos em árabe, que fechavam com um poema curto, popular, em língua romance (a falada na Andaluzia) denominada então de Carja.

         Mocadem nasceu em plena dominação Árabe na Espanha, na Península Ibérica e era, portanto um poeta de língua Árabe. Faleceu em 920 D.C.

         A partir do século XIII, a Trova começa a desenvolver-se com certo requinte, ou seja, de forma mais aprimorada, mais bem feita. Em “Cantigas de Santa Maria”, livro escrito pelo Rei Afonso X, de Castela, região da Espanha, no século XIII, encontramos mais de 200 refrões com as características da nossa Trova. Eis um exemplo:

                   Conhecidamente mostra

                        milagres Santa Maria

                        em aqueles que a chamam

                        de coração, noite e dia.

         Os séculos seguintes estão cheios de poemas com refrões, com as características de Trova.

         No século XVI, encontramos Trovas do Poeta Camões.

         Luís Vaz de Camões é considerado um dos maiores poetas épicos.

         Poeta épico é aquele que faz poemas grandes, sobre assuntos e ações heróicas.

         Camões nasceu em Lisboa em 1524. Em 1552, numa batalha na África, perdeu o olho direito. Pouco se sabe com segurança sobre a vida de Luís Vaz de Camões. É provável que tenha nascido por volta de 1525, em Lisboa. Lutando contra os mouros, na investida portuguesa em Ceuta, em 1549, perde a vista direita, razão pela qual será sempre representado futuramente com um tapa-olho. Preso durante o ano de 1552 por se envolver em brigas, embarca para o Oriente no ano seguinte em serviço militar. Teve um relacionamento com Dinamene, companheira chinesa do poeta. Navegando pelo rio Mecon, na Indochina, o casal sofreria um naufrágio. Diz a lenda que Camões teria conseguido salvar a si e aos manuscritos dos Lusíadas, enquanto a infeliz Dinamene morria afogada. Camões dedicaria à amada morta vários de seus poemas líricos, procurando elevá-la às mesmas alturas da Laura de Petrarca ou da Beatriz de Dante. Retornando a Portugal, consegue publicar, em 1572, a sua obra-prima, Os Lusíadas, e passa a viver de uma modesta pensão oferecida por Dom Sebastião, a quem dedicara seu poema épico. Morre em 1580, mesmo ano em que Portugal perdia sua autonomia política, caindo sob o domínio da Espanha. Em carta a Dom Francisco de Almeida, o poeta sintetiza este momento: “…acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não me contentei em morrer nela, mas com ela”.  Lisboa é a Capital de Portugal, país que com a Espanha forma a Península Ibérica.

            Camões escreveu o poema épico, “Os Lusíadas” que possui 1.102 estrofes e 8.816 versos. Estrofe é um conjunto de versos de uma composição poética. Já verso, em poesia, é cada linha de um poema. Assim os  “Os Lusíadas”  é um poema que possui 8.816 linhas.

            O livro “Os Lusíadas” foi publicado com sucesso em 1572. Apesar do sucesso de sua obra épica, Camões morreu na miséria em 1580. Poemas líricos seus, só foram publicados 15 anos após sua morte. Eis uma de suas Trovas, no esquema de rima “ABBA”:

                        Campos bem-aventurados

                        tornai-vos agora tristes,

                        que os dias em que me vistes

                        alegre,  já são passados.

A partir de Camões (Século XVI) até o Século XVIII, a trova ficou, praticamente, no obscurantismo. Somente por volta de 1815, através de uma coletânea de contos folclóricos alemães de Wilhein e Jacob Grimm foi que a trova reapareceu. Em 1859, houve uma publicação sobre “trovas folclóricas” de Cecília Bohl, intitulada Cuentos y Poesias Populares Andaluces. Em 1867 veio a lume a coleção de “Trovas Portuguesas”, organizada por Teófilo Braga (1843-1924). Em 1883, foi lançado em Portugal, o livro “Cantos Populares do Brasil”, de autoria do sergipano Silvio Romero (1851-1914).

Em 1902, Antônio Correa de Oliveira (1879-1960) publicou o livro “Cantigas”, o primeiro livro de Língua portuguesa inteiramente de trovas.

II

MIL ANOS

         O surgimento do nome da Trova está intimamente ligado à poesia da Idade Média. Durante a Idade Média, Trova era o sinônimo de poema e letra de música. Hoje a Trova possui a sua conceituação própria, diferenciando da Quadra e da Poesia de Cordel, e do Poema musicado da Idade Média.

DIFERENÇA ENTRE TROVA E QUADRA

         Existe uma grande diferença entre Quadra e Trova. Quadra são somente os quatro versos de uma poesia, ou seja, as quatro linhas de uma poesia. Já a Trova é uma Composição Poética de quatro versos que obrigatoriamente deve ter sete sílabas poéticas cada verso, rima e sentido completo.

         Conhecem-se Trovas escritas nas línguas derivadas do Latim situadas na Península Ibérica, a saber: Português, Galego, Espanhol e Catalão, nos séculos X e XI. Como vimos no capítulo anterior a Trova teria surgido junto com o alvorecer das línguas derivadas do Latim, as chamadas línguas romances.

            Latim: A língua do antigo Lácio. A língua falada pelos Romanos Antigos. As línguas: Português e  Espanhol derivam do Latim.

            O Lácio (em latim, Latium; em italiano, Lazio) é uma região da Itália central com cinco milhões de habitantes e 17 203 km² , cuja capital é Roma. Tem limites ao norte com a Toscana e Úmbria, a leste com Marche, Abruzzo e Molise, ao sul com a Campânia e a oeste com o Mar Tirreno.

O Lácio estende-se da cordilheira dos Apeninos, espinha dorsal da Península Itálica, ao mar Tirreno. Seu nome, originalmente Latium, remete aos latinos, povo do qual os romanos descendem e cujo idioma, o latim, tornou-se a língua formal do Império Romano, tendo sido amplamente difundido nos territórios sob o seu domínio. De enorme importância histórica e cultural, foi o local onde Roma foi fundada, acredita-se que no século VIII a.C.

A expressão “Última flor do Lácio, inculta e bela” é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac, poeta brasileiro que viveu no período de 1865 a 1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua a ser bela.

A origem da Poesia Trovadoresca Medieval (que não pode ser confundida com a trova-quadra moderna nem a daqueles tempos recuados) perde-se no tempo, contudo foi a criação literária que mais destaque alcançou entre as formas poéticas medievais, originárias de Provença, Sul da França.

         Expandiu-se no século XII por grande parte da Europa e floresceu por quase duzentos anos em Portugal, França e Alemanha.

         O Trovador Medieval representava a glorificação do amor platônico, pois a dama que era a criatura mais nobre e respeitável da criação, a mulher ideal, inacessível para alguns, passava a ser a pessoa a quem o referido Trovador endereçava os seus líricos versos.

         Os primeiros Trovadores Modernos a fazerem Trovas sistematicamente para publicação surgiram no século passado em Espanha e Portugal, na esteira dos folcloristas que as recolhiam em meio ao povo.

         Sobre a gênese (Gênese: Origem; Criação) da Trova Medieval, por falta de documentos sobre o folclore na Idade Média, os historiadores consideram a mesma imprecisa. Não há dados concretos que estabeleçam a época certa do surgimento da Trova Medieval. O que se tem registrado é que, entre 1.100 e 1.300, escritos de autores Espanhóis e Portugueses utilizavam como recurso auxiliar, composições poéticas hoje reconhecidas como formas das primeiras manifestações “trovadorescas”(ou seja, da trova medieval)  de que se tem conhecimento.

         A Trova que passou a pontilhar na Literatura da Espanha e Portugal, propagou-se pelos países surgidos das conquistas dessas potências marítimas, chegando, pois à América Latina e ao Brasil.

         A verdade é que o período folclórico da Trova sempre se revitalizará enquanto existirem propagadores do ato do recitar nas festas em família e das brincadeiras de roda.

         Há de se considerar, também, acontecimentos como a extraordinária popularidade da Trova, que contrariamente ao esperado, constitui-se num fator que alguns consideram negativo para o seu real aproveitamento na Literatura, uma vez que, antigamente, o que vinha do povo era rejeitado pela nobreza, que manipulava a elite intelectual da época.

         Ainda hoje, alguns homens de letras, que, privados de sensibilidade poética, se recusam a reconhecer o valor da Trova, a consideram coisa “cafona”, indigna de um verdadeiro intelectual. Uma ojeriza de uma “pseudo-elite”  minoritária.

         Segundo um Professor de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo, em entrevista publicada no Jornal “A Gazeta”, de 13 de Julho de 1981, a Trova: “É, como uma espécie contida dentro da lírica, das coisas mais fáceis que há na poesia. A gente tem que reconhecer que a Trova é limitada. Ela é muito explorada precisamente porque é mais fácil e mais acessível. O verso heptassilábico é o mais fácil que há. Pode-se até notar que a posição dos versos é bastante simples, das mais comuns que há.”

         Na mesma entrevista prossegue o professor sobre o Clube dos Trovadores Capixabas, CTC: “Fundar um Clube de Trovadores é algo que aparece e passa. As próprias pessoas, com o tempo cansam. É de fácil aceitação, mas não vai para frente.”

         O professor da referida entrevista, estava errado, pois o CTC sobrevive até os dias atuais, 27 anos depois.

         Em 1989 Clério José Borges, representando o Clube dos Trovadores Capixabas era nomeado, pelo Governador do Estado na época, Dr. Max de Freitas Mauro, Titular da Câmara de Literatura do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Espírito Santo. O Conselho Estadual de Cultura do Estado do Espírito Santo é um órgão do Governo do Estado, de consulta para assuntos culturais. O referido professor foi nomeado Suplente (Reserva) da referida Câmara.

         A despeito do que disse o tal professor, o Clube dos Trovadores Capixabas continua em plena atividade, mais de 27 anos depois de sua fundação em 1980.      Segundo Elmo Elton, eleito em 1980, Rei dos Trovadores Capixabas não é fácil escrever Trovas, “visto que apenas os inclinados para o exercício desse gênero poético sabem como bem realizá-las dentro das normas exigidas à sua correta feitura, já que, caso contrário, tão somente conseguem o que é comum, enfileirar quatro versos sem aquelas características essenciais que conseguem consagrar uma Trova.”

         Vale aqui lembrar a Trova do Rei dos Trovadores Brasileiros, Adelmar Tavares, que era Acadêmico da Academia Brasileira de Letras:

                   Ó linda trova perfeita,

                        que nos dá tanto prazer,

                        tão fácil, – depois de feita,

                        tão difícil de fazer.

         Os primeiros Trovadores, com produção regular para publicação, apareceram em Portugal e Espanha, no Século XIX, criando Trovas “popularizáveis” que muito se assemelham às populares.

         Segundo os historiadores, o português Antônio Correia de Oliveira publica, no início do século, dois livros de versos em língua lusitana.

         Língua Lusitana – A língua falada em Portugal pelos Portugueses.

         Antônio Correia de Oliveira, que pela qualidade de sua obra e pela edição dos dois primeiros livros de Trovas na Língua Portuguesa, é considerado um dos primeiros grandes Trovadores Literários, ou seja, Trovador que  organiza e publica suas Trovas.

         É de sua autoria esta Trova publicada em 1900:

                   Sino, coração da aldeia,

                        coração, sino da gente.

                        Um a sentir quando bate,

                        outro a bater quando sente.

         Antônio Correia de Oliveira (1879-1960) nasceu em São Pedro do Sul e faleceu em Esposende. Estudou no seminário de Viseu, indo depois para Lisboa onde trabalhou como jornalista no Diário Ilustrado. Tendo casado com uma rica proprietária minhota, fixa-se na aldeia de Belinho, conselho de Esposende. Foi um dos cantores do Saudosismo, juntamente com Teixeira de Pascoaes e outros. Colaborou na revista A Águia, Atlântida, Ave Azul e Seara Nova. Obras poéticas: Ladainha (1897), Eiradas (1899), Cantigas (1902), Raiz (1903), Ara (1904), Tentações de S. Frei Gil (1907), Elogio dos Sentidos (1908), Alma Religiosa (1910), Dizeres do Povo (1911), Romarias (1912), A Criação. I. Vida e História da Árvore (1913), A Minha Terra (1915-1917), Na Hora Incerta (Viriato Lusitano) (1920), Verbo Ser e Verbo Amar (1926), Mare Nostrum (1939), História Pequenina de Portugal Gigante (1940), Aljubarrota ao Luar (1944), Saudade Nossa (1944), Redondilhas (1948), Azinheira em Flor (1954).

III

ORIGEM BRASILEIRA

         A partir de 1905, a trova chega definitivamente ao Brasil. Fez-se trova em Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Juiz de Fora e em algumas cidades do Rio Grande do Sul.

O “Modernismo” em 1922, não contestou diretamente a trova, mas na medida em que ganhava “fôlego”, a trova se retraia. A partir de 1950, surgem novas gerações empenhadas em manter a sobrevivência da Trova. Surge nessa época, o primeiro “Movimento Trovista do Brasil”, levado a efeito por Luíz Otávio, que iniciou distribuindo Folhas Soltas, com o título “Meus Irmãos, os Trovadores”. Na primeira “leva” de trovas que ele distribuiu, apareceu uma de Olivier Neto que definia assim a Trova:

            Meiga forma abandonada

            que merece amor e estudo.

            No espaço de um quase nada,

            pode dizer quase tudo.

No Brasil, o primeiro movimento literário em torno da Trova se firmou em Recife.

         Recife é a Capital do Estado de Pernambuco, no Nordeste Brasileiro. Lá se destacou o Poeta Jader de Andrade e também os poetas do livro “Descantes”, publicado em 1907.

         A palavra Descantessignifica “cantiga popular”e vem de descantar, que significa cantar ao som de instrumento.

         O livro “Descantes” reunia estudantes de Direito de Recife. Todos líricos boêmios de serenatas. Trata-se de um livro com 56 páginas e conta com a participação de cinco Trovadores. Eram eles: Carlos Estevam, Manoel Monteiro, Silveira Carvalho, Moreira Cardoso e Adelmar Tavares, na época com apenas 18 anos de idade. Eis três trabalhos do referido livro:

                   Musa dos olhos brilhantes,

                        senhora dos versos meus,

                        não desprezes meus descantes,

                        que os meus descantes são teus.

                                               Carlos Estevam

Tempo já houve,  risonho,

em que eu tanto fantasiava,

que até parecia um sonho

o dia em que não sonhava…

            Silveira Carvalho

                        Canto… E abre-se a janela

                        e aparece a imagem tua…

                        – Meu deus, que coisa tão bela:

                        Um lírio fitando a lua…

                                       Adelmar Tavares

         Jader de Andrade nasceu em Goiana, cidade do Estado de Pernambuco, em 1885. Em 1905, portanto dois anos antes do livro “Descantes”, publicou o livro “Musa & Troça”, sob o pseudônimo, (Pseudônimo: Nome inventado, falso. Alguns escritores usam às vezes, pseudônimos para esconderem seus nomes verdadeiros). de Job de Sá. 

         O livro de Jader de Andrade era de sonetos.

         O Soneto é uma composição poética de quatorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos, isto é, duas estrofes de quatro versos e duas de três versos. O verso, como já abordamos, é cada linha em uma poesia.

         Embora fosse um livro basicamente de sonetos, “Musa & Troça”  possuía algumas Trovas. Uma delas é a seguinte:

                     Parece troça, parece

                        mas eu digo francamente

                        que a gente nunca se esquece

                        de quem se esquece da gente.

                                        Jader de Andrade

         Troça é uma coisa engraçada. Uma farra. Uma festa alegre. A Trova, “parece troça”, popularizou-se de tal forma que em 1909, um pesquisador ao passar pelo Estado de Pernambuco, anotou como de autoria anônima, isto é, desconhecida, uma variante, ou seja, uma nova versão, daquela Trova. Observam-se na variante algumas modificações:

                   Parece até brincadeira

                        mas é verdade patente

                        que a gente nunca se esquece

                        de quem se esquece da gente.

         Um dos integrantes do livro “Descantes”, era Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti, nascido em Recife, Pernambuco, em 1888. Adelmar passou parte da infância em Goiana, cidade do interior de Pernambuco. Em 1988, no Centenário de Adelmar, quando foi realizado em Pernambuco o Segundo Simpósio Nacional da Trova, Eno Teodoro Wanke e Clério José Borges e  outros Trovadores participantes do Simpósio, visitam Goiana, ocasião em que foram recebidos festivamente pelo Prefeito, Autoridades, povo e estudantes da cidade. Aquele dia foi declarado feriado municipal em Goiana.

         Na ocasião os Trovadores visitaram a casa onde viveu Adelmar Tavares, que fora desapropriada, o túmulo de seus pais, onde muitos discursos foram feitos perante a multidão que acompanhava os trovadores, e a Fundação Adelmar Tavares, criada naquele dia da festiva visita dos trovadores.

         Dos cinco participantes do livro “Descantes”, Adelmar tornou-se o mais popular e conhecido. Após formar-se em Direito em 1909, mudou-se para o Rio de Janeiro, então Capital do Brasil.

         No Rio em 1910 publicou o livrinho “Trovas e Trovadores”. Em 1912, Adelmar publica, “Myriam, luz dos meus olhos”. Seguem-se os livros: “A Poesia das Violas”, em 1921 e “Noite Cheia de Estrelas”, em 1925. Com tais livros publicados, Adelmar conquista a intelectualidade do Rio. Assim no dia 4 de setembro de 1926, toma posse na Academia Brasileira de Letras, na cadeira nº 11, cujo patrono é Fagundes Varela.

         Fagundes Varela foi um poeta brasileiro, nascido em Rio Claro, Rio de Janeiro em 18 de agosto de 1841. Era um hábil, isto é, fino poeta com uma variedade de temas embora sua poesia fosse principalmente relacionada com sofrimento, pois era um homem angustiado e cheio de temores. Faleceu em Niterói, no Rio de Janeiro a 18 de fevereiro de 1875, quando participava de uma refeição com amigos.

         Na eleição realizada na Academia, com seus livros de Trovas, Adelmar Tavares acabou derrotando outros escritores pretendentes, entre eles, Monteiro Lobato.

         José Bento Renato Monteiro Lobato (Taubaté, 18 de abril de 1882 — São Paulo, 4 de julho de 1948) foi um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX. Ele é popularmente conhecido pelo conjunto educativo, bem como divertido, de sua obra de livros infantis, o que seria aproximadamente metade de sua produção literária. A outra metade, que consiste em um número de romances e contos para adultos, foi menos popular, mas um divisor de águas na literatura brasileira.

            Escritor que já tinha lançado em 1918 o seu livro “Urupês” que criou o tipo Jeca Tatu, modelo do homem brasileiro do interior e livros com personagens do “Sítio do Pica-pau Amarelo”: Lúcia, ou a menina do “Narizinho Arrebitado”, em 1921; “O Saci”, em 1921; “Marquês de Rabicó”, em 1922, etc.

         Em 1960, três anos antes do seu falecimento, Adelmar Tavares foi eleito “Rei da Trova”, no 2º Congresso de Trovadores e Violeiros, realizado no Estado de São Paulo e promovido por Rodolfo Coelho Cavalcante.

         A eleição de “Rei da Trova” para Adelmar Tavares foi ratificada posteriormente por cerca de 200 Trovadores de todo o Brasil, em consulta feita por Carta-Circular, pelos Trovadores Eno Teodoro Wanke e Walter Waeny. É preciso dizer que a Academia Brasileira de Trova sempre considerou Adelmar Tavares, seu patrono, como o “Príncipe dos Trovadores”.

         Adelmar Tavares faleceu no dia 20 de junho de 1963, no Rio de Janeiro, após publicar cerca de 14 obras poéticas e alguns livros jurídicos, ou seja, relativo a ciência do Direito.

         Adelmar prezava a qualidade da Trova:

                   Nem sempre com quatro versos

                        setessilábicos a gente

                        consegue fazer a trova:

                        Faz quatro versos somente.

                                         Adelmar Tavares

         É importante destacar que uma forma despretensiosa de Trova foi a “não-intencional”,  feita pelos grandes poetas como Camões, Gregório de Matos, Bocage, Bilac e outros, não merecendo maior atenção dos autores que a consideravam uma brincadeira. Outra coisa é a Trova intencional. Feita como Obra de Arte, como Literatura.

         Importante destacar que no Brasil o movimento trovista se inicia realmente em Recife com Adelmar Tavares e seus companheiros. Após sua transferência para o Rio, Adelmar desencadeia um movimento entre os poetas em favor da Trova, que o leva como Trovador a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

         Quando em 1950, Luís Otávio inicia o Movimento que passou a ser chamado de Trovismo, o fez por influência de Adelmar Tavares.

         Em 1911, Belmiro Braga, mineiro de Juiz de Fora publica o livro “Rosas”, em que aparecem versos de singela beleza, como a seguinte Trova:

                   Colherás com mil carinhos,

                        tu, que a ventura desposas,

                        entre teus anos de espinhos,

                        alguns instantes de rosas.

         A Trova vem sendo enriquecida, através dos tempos,  por exemplos de extrema sensibilidade e sutileza como encontramos no Poeta Português, Fernando Pessoa:

                        Vai alta a nuvem que passa.

                        Vai alto o meu pensamento,

                        que é escravo da tua graça,

                        como a nuvem o é do vento.”

         Já a Semana da Arte Moderna, promovida em 1922, foi um movimento veementemente contrário a todas as poesias metrificadas, assim, a Trova, o Soneto e outras poesias ficaram adormecidas por muito tempo. A ascensão da Trova no meio literário sofre brusca e injusta interrupção, no período de 1922 a 1950.

IV

O TROVISMO

         A partir de 1950, os cultivadores da Trova passaram a organizar um Movimento Literário em torno dela no Brasil, que em 1960 ganhou fôrça e expressão devido ao trabalho do escritor Luís Otávio, pseudônimo do Cirurgião Dentista Gilson de Castro que nasceu no Rio de Janeiro a 18 de Julho de 1916 e faleceu a 31 de Janeiro de 1977, na cidade de Santos, no Estado de São Paulo.

         Segundo o historiador Eno Teodoro Wanke, “Luís Otávio foi, sem a princípio perceber, o construtor do Movimento Literário em torno da Trova, e também o seu administrador”.

         Luís Otávio foi o fundador da seção da Guanabara do Grêmio Brasileiro de Trovadores, cuja sede ficava na Bahia e fôra fundado a nível nacional por Rodolfo Coelho Cavalcante.

         A cidade do Rio de janeiro já foi denominada Estado da Guanabara e em 1º de Janeiro de 1961, quando o GBT da Guanabara foi fundado, a Guanabara era um dos mais importantes Estados Brasileiros.

         O estado da Guanabara existiu entre 1960 e 1975 e foi criado pela Lei San Tiago Dantas de 14 de março de 1960, e sua composição geográfica abrangia o território da antiga capital. No dia 15 de Março de 1975 o Estado da Guanabara foi extinto, surgindo então a fusão, isto é, união dos dois Estados,  o da Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro, formando um único Estado.

         Em 1964 Luís Otávio consegue que seja aprovada e sancionada a Lei criando o Dia do Trovador na Guanabara, na data do seu aniversário, a 18 de Julho.

         Após o rompimento das seções do Sul, Centro e Oeste do Brasil, do Grêmio Brasileiro de Trovadores, com a sede no Estado da Bahia, foi fundada em 20 de agosto de 1966 a União Brasileira de Trovadores, UBT. As seções do GBT se transformam em seções da UBT e, em 1º de Janeiro de 1967, várias seções são instaladas simultaneamente em diversas cidades brasileiras. Todas com a liderança Nacional de Luís Otávio.

                   Duas vidas todos temos,

                        muitas vezes sem saber:

                        a vida que nós vivemos

                        e a que sonhamos viver.

                                       Luís Otávio

         O Movimento Literário em torno da Trova então surgido a partir de 1950, recebeu, no princípio, o nome de Trovadorismo ou Movimento Trovadoresco. Tais nomes contudo, confundem-se com os termos usados para o período da Idade Média, onde se produziu poesias  musicadas.

         O adjetivo “Trovadoresco”, por exemplo, refere-se ao Trovadorismo, movimento medieval poético musical, que, como vimos nada tem a ver com a Trova-Quadra dos dias atuais.

         Por esse motivo, Eno Teodoro Wanke propôs, no seu devido tempo, uma  denominação específica, que tem subsistido e hoje é oficial: “Trovismo”

         Tanto que a Enciclopédia de Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza e publicada pelo Governo Federal, através da FAE – Fundação de Assistência ao estudante do Ministério da Educação em 1990, publica na página 1.323:

         “TROVISMO. Movimento literário levado a efeito pelos modernos  trovadores brasileiros, que utilizaram a trova como forma de expressão  exclusiva, a partir da década de 1950. REF.: Wanke, Eno Teodoro. O Trovismo; D.E”.

         A palavra “Trovismo”  foi usada pela primeira vez e de maneira casual, em publicação do Poeta J.G. de Araújo Jorge, em 1968.

         Ladeiras, praias, coqueiros,

igrejas, lendas, poesia,

         “Cais do Mercado”, saveiros,

                                                – Natal da Pátria: Bahia.

                  J. G. de Araújo Jorge

            José Guilherme de Araújo Jorge, nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, Estado do Acre. Filho de Salvador Augusto de Araújo Jorge e Zilda Tinoco de Araújo Jorge.

            Em 1932, No Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, foi escolhido o ” Príncipe dos Poetas”, sendo saudado na festa por Coelho Neto, “Príncipe dos prosadores brasileiros” recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, Presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por  Alberto Oliveira, então ” Príncipe da Poesia Brasileira”.

            Foi locutor e redator de programas radiofônicos, atuando nas Rádios Nacional, Cruzeiro do Sul, Tupi e Eldorado. Em 1965, era professor  de História e Literatura, do Colégio  Pedro II. Com irrefreável vocação política, foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, reelegendo-se já para o seu terceiro mandato em 1978. Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na  Câmara dos Deputados.

            Foi conhecido como o Poeta do Povo e da Mocidade, pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno, mas às vezes, dramático. Foi um dos poetas mais lidos, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil. Faleceu em 27 de Janeiro de 1987, no Rio de Janeiro.

         Mas, a palavra “Trovismo” se firmou mesmo no cenário cultural brasileiro, a partir de 1970, mais ou menos, graças aos trabalhos de Eno Teodoro Wanke, que a propôs e utilizou, inclusive, como título do livro “O Trovismo”, publicado em 1978 pela Companhia Brasileira de Artes Gráficas, do Rio de Janeiro. Possui o subtítulo, isto é, um segundo título denominado: “História do primeiro movimento poético-literário genuinamente brasileiro”.

         Após a morte de Luís Otávio em 1972, o movimento em torno da Trova no Brasil continuou de forma mais lenta. A União Brasileira de Trovadores passou a ser presidida pelo Trovador Carlos Guimarães, que foi mantido no cargo por mais de 12 anos. Em 1996 assumiu a Presidência Nacional da UBT, o Trovador João Freire Filho.

         A UBT além de manter e criar novas seções em diversas cidades do Brasil, passou a realização de alguns concursos de Trovas e Jogos Florais.

            Os Jogos Florais surgiram na Idade Média. Os torneios entre os cavaleiros de armaduras que chagava a um final trágico pois se matavam mutuamente com lanças e espadas, foram substituídos pelos duelos poéticos ou musical. Baseado num destes duelos de 1207, mais tarde Wagner criou a sua conhecida ópera “O Trovador”.

            Wagner foi um famoso compositor alemão, nascido em 1813 e falecido em 1883. Seu nome completo era Richard Wagner e revolucionou a ópera, juntando num só conjunto o canto, a orquestra e o texto. Suas obras tinham caráter inovador. Além de “O Trovador” inspirado nos trovadores alemães, fez outras óperas, entre as quais “Tristão e Isolda”.

            Ópera é um drama musicado, apresentado por uma Orquestra e Cantores em estilo teatral, isto é, em forma de peça de Teatro.

         Consta que em 1323, sete poetas da cidade francesa de Toulouse organizaram no mês de maio um concurso poético cujos prêmios eram dados em flores. Até alguns anos atrás, a Academia dos Jogos Florais, na França, oferecia  prêmios em dinheiro e medalhas.

         De 1960 a 1980, muitos concursos foram promovidos no Brasil, sob a orientação e o comando da União Brasileira de Trovadores, cuja sede nacional fica no Rio de Janeiro. Os concursos continuam até os dias atuais, embora hoje sejam realizados também por outras entidades culturais, como Febet – Federação Brasileira de Entidades Trovistas e o Clube dos Trovadores Capixabas, CTC.

         Os Concursos de Trovas quando bem divulgados e abertos para os iniciantes, proporcionam a divulgação da Trova e possibilitam a descoberta de novos Trovadores.

         Eis algumas Trovas premiadas em Jogos Florais:

                        Não me chames de senhor,

                        que não sou tão velho assim,

                        e a teu lado, meu amor,

                        não sou senhor nem de mim.

                                    Rodrigues Crespo

Maria, só por maldade,

deixou-me a casa vazia…

Dentro da casa: Saudade

e na saudade: Maria.

            Anis Murad

         A exigência de que a Trova deve ter sentido completo e independente, é deveras importante. Daí convém lembrar que não é de bom alvitre dar títulos às Trovas. Uma Trova intitulada deixa transparecer que não está completa, e não é uma Trova de conteúdo independente, pois este está ligado ao título.

Nem sempre é possível, mas devemos evitar rimas com palavras de mesma classe gramatical, ou seja, substantivo com substantivo, adjetivo com adjetivo… e verbo com verbo, principalmente quando no modo infinitivo (amar, cantar, gritar, correr, dizer, ouvir, sentir…) Quanto ao verbo “pôr” e seus compostos, a rima é perfeita (por-compor-dispor…).

O verso de sete sílabas métricas é, por natureza, o legítimo, o verdadeiro verso! Há Trovas de mil temas, mas, são muito usuais as Trovas chamadas líricas, satíricas, humorísticas, filosóficas, religiosas, circunstanciais… Exemplos:

Humorística:

         Careca, sem um cabelo,

            percorreu o restaurante,

            mas diz o menina. ao vê-lo:

            – mamãe, um queijo ambulante!

                        (Miguel Russowsky)

Religiosa:

            És a luz, és o Caminho

            que nos leva para Deus.

            Com firmeza e com carinho,

            Jesus guia os passos meus!

                        (Lourdes Mello)

Satírica:

            Quem mora em apartamento,

            vive, na certa, isolado.

            Torna-se acontecimento

            ver o vizinho do lado.

            (Milton Mariano)

Lírica:

            Saudade – mágoa gostosa,

            ninguém sabe de onde vem.

            Vive num botão de rosa,

            morre nos olhos de alguém.

            (Abel B. Pereira)

         Circunstancial:

                   De hino tradicional,

                        mesmo sem som de fanfarra,

                        me foi mui sensacional

                        vir a Conceição da Barra.

                        (Abel B. Pereira)

V

FOLCLORE

         A palavra Folclore significa “saber do povo”, isto é a produção feita pelo povo.  Folclore é o estudo da tradição, isto é, da transmissão oral de canções, lendas, fatos de geração em geração, ou seja, de pai para filho.

         O folclore, ciência considerada indispensável para o conhecimento social e psicológico de um povo, deve seu nome ao arqueólogo inglês William John Thoms, que no dia 22 de agosto de 1846 empregou pela primeira vez a palavra folk-lore, composta de dois vocábulos saxônicos antigos: folk, significando povo, e lore, que quer dizer conhecimento ou ciência. Portanto, o folclore pode ser definido como a ciência que estuda todas as manifestações do saber popular.

         No Brasil, após a reforma ortográfica de 1934, que eliminou a letra k, a palavra perdeu também o hífen e tornou-se folclore.

         O folclore é encontrado na literatura sob a forma de poemas, lendas, contos, provérbios e canções, assim como nos costumes tradicionais como danças, jogos, crendices e superstições. Verifica-se também sua existência, nas artes e nas mais diversas manifestações da atividade humana.

         Lendas são histórias fantásticas, imaginosas, divulgada de pai para filho.        Geração é a descendência, isto é, uma série de pessoas da mesma família.

         Quando se fala de Folclore, concebe-se, ou seja, imagina-se sempre a idéia de que a autoria é do povo. A poesia popular, segundo alguns, não vem de poetas individuais, cujos nomes são conhecidos. Nasce do próprio povo. É lógico que no início houve – e haverá sempre – a criação individual.

         Com o decorrer do tempo, o povo aceitando a lenda, canção ou poesia, esquece o nome do autor. É claro que o povo no sentido coletivo, de modo geral, não pode inventar ou criar alguma coisa. Sempre haverá um criador. Mas, quando o trabalho circula de pessoa para pessoa, havendo inclusive pequenas mudanças de palavras, e a autoria é esquecida, temos aí a folclorização, o fato folclórico, o Folclore.

         O anonimato é aquilo que é anônimo, sem nome do autor. O anonimato é uma característica fundamental do folclore. Assim na Trova, é considerado folclore aquilo que é anônimo. Quando o autor de um trabalho, de uma Trova é conhecido, temos então um trabalho literário, a Trova Literária.

         O Folclore está nas “Cantigas de Roda”, como:

                   Oh, ciranda, cirandinha,

                        vamos todos cirandar

                        vamos dar a meia volta,

                        volta e meia vamos dar.

por isso, dona Maria

entre dentro desta roda

cante um verso bem bonito

diga adeus e vá se embora.

         Cantigas de Roda são canções que surgem nas cirandas infantis.

As meninas e os meninos ou adultos, de mãos dadas formam uma roda e convidam as pessoas para entrarem no meio da roda e cantarem alguns versos.

         O Folclore está também nos contos infantis. Entre os  contos infantis folclóricos mais conhecidos estão as histórias de Saci-Pererê, Mula sem cabeça, Cuca…

         Contos são histórias pequenas.

            Saci-Pererê é um menino escuro com chapéu tipo gorro na cabeça. Possui uma só perna e anda sempre com um cachimbo na boca. O saci, nos contos infantis e nas lendas, perturbava as pessoas que viviam no interior do Brasil.

            O Escritor Monteiro Lobato popularizou o Saci-Pererê nas suas histórias infantis do “Sítio do Pica-pau Amarelo.”

         Eis um exemplo de Trova Folclórica:

                   Batatinha quando nasce

                        se esparrama pelo chão.

                        Mamãezinha quando dorme

                        põe a mão no coração.

         A Trova da “Batatinha”é considerada pelo estudioso Eno Teodoro Wanke como a Trova mais popular no Brasil. Em todos os locais, quando se começa o primeiro  verso, isto é, quando se começa a falar a primeira linha, os ouvintes continuam os demais versos.

         Quer nas cidades grandes e mesmo em Escolas de Comunidades Rurais, constata-se que basta apresentar o primeiro verso que sempre um aluno ou mesmo professores, terminam a Trova. O fato foi constatado pelo autor Clério Borges, em palestras ministradas em escolas das cidades de Magé – RJ; Timóteo – MG; Porto Alegre – RS; Corumbá – MS; Ladário – MS; Olinda – PE; Recife – PE; Salvador – BA; São Paulo – SP; Rio de Janeiro – RJ; Maringá – PR; Nas cidades do Espírito Santo: Barra de São Francisco, Colatina, Vitória, Vila Velha, Cariacica, Serra, Domingos Martins, Afonso Cláudio, Alegre, Conceição da Barra, Linhares, São Mateus e outras cidades.

         O curioso é que no Norte do Estado, principalmente Colatina, Barra de São Francisco e Linhares, os estudantes terminavam a Trova com um final e já em Pau Amarelo, localidade rural de Cariacica os estudantes terminavam a trova com outro final.

         Eis a versão do Norte do Estado do Espírito Santo:

                     Batatinha quando nasce

                        se espalha bem pelo chão.

                        Menina, quando namora,

                        alegra seu coração.

         Agora observe a versão, variante, encontrada na antiga e hoje desativada, Escola Unidocente “José Frederico Thomes”, de Pau Amarelo, localidade Rural do interior do Município de Cariacica, na Região da Grande Vitória – ES:

                   Batatinha quando nasce

                        deita as ramas pelo chão.

                        Mamãezinha quando acorda

                        põe a mão no coração.

         No livro “Cancioneiro Capixaba de Trovas Populares”de autoria do historiador já falecido, Guilherme Santos Neves há várias variantes da Trova da “Batatinha.” Eis dois exemplos:

                     Batatinha quando nasce

                        se esparrama pelo chão.

                        Moreninha, quando passa,

                        põe a mão no coração.

Batatinha quando nasce

bota rama pelo chão.

Menina, quando namora,

bota a mão no coração.

         A batata é uma planta comestível que nasce debaixo da terra onde as raízes se espalham. Na parte de cima da terra, as ramas, (folhas), se espalham pelo chão.

         Outra Trova Popular ou Folclórica é conhecida como a Trova do “sol pela vidraça”.  Não se sabe quem a fez pela primeira vez. Já foi ouvida há mais de cem anos atrás em Portugal. Também em outras cidades do Brasil, a Trova do “sol pela vidraça”  é conhecida.

         Como ocorre com as Trovas Populares, Folclóricas, de uma região para outra, ocorrem algumas mudanças. São as novas versões, as variantes da Trova. Algumas palavras mudam, todavia o sentido, a idéia, continua a mesma.

         Eis a Trova do “sol pela vidraça” conforme ouvida por pesquisadores em Portugal:

                        No ventre da Virgem pura,

                        encarnou divina graça,

                        entrou e saiu por ela

                        como o sol pela vidraça.

         A Trova refere-se a um fato divulgado pela Igreja Católica de que Maria, conhecida por Nossa Senhora, ao ter o seu filho Jesus, continuou virgem e pura o que na Trova é considerada uma divina graça, pois o menino nasceu e a mãe continuou virgem.

         É um dogma da Igreja Católica. Como os raios do sol que passam pela vidraça sem estragar ou imacular o vidro.

            Dogma é cada um dos pontos fundamentais e indiscutíveis de uma crença religiosa. Dogmática é a parte da Teologia que trata dos dogmas.

         No interior do Espírito Santo, o historiador Guilherme Santos Neves em suas pesquisas, ouviu uma versão da Trova, do “sol pela vidraça”, que   comparando-se  com a trova colhida em Portugal,  observa-se  que o sentido é o mesmo, mas os versos, isto é, as linhas da Trova, são diferentes. Repare:

                   Bateu o sol na vidraça

                        e a lua sem tocar nela.

                        Foi como a Virgem Maria:

                        – Foi mãe e ficou donzela.

         A Trova encontrada no Espírito Santo é, como se pode observar, mais explicativa. Explica melhor a questão sobre o nascimento de Jesus, filho de Deus.

         Conta o escritor Eno Teodoro Wanke no seu livro “A Trova Popular”, publicado em 1974, pela Editora Pongetti do Rio de Janeiro, que um pesquisador passando em 1926 pelo Espírito Santo ouviu a seguinte Trova:

                        Morena, minha morena,

                        boquinha de porcelana,

                        um beijo de tua boca

                        sustenta-me uma semana.

         A Trova “morena, minha morena”  é pois o exemplo de Trova Popular, ou seja, Folclórica. E, uma Trova Folclórica Capixaba, ou seja, do Espírito Santo.

VI

MEMÓRIA POPULAR

         Uma dos mais importantes pesquisadores do Folclore do Estado do Espírito Santo foi o Professor Guilherme Santos Neves. Nascido a 14 de Setembro de 1906 e já falecido, o Professor Guilherme nasceu no Espírito Santo e foi membro da Academia Espirito-Santense de Letras. Publicou os livros “Cantigas de Roda”, em 1948 e “Cancioneiro Capixaba de Trovas Populares”, em 1949, entre outros livros.

            GUILHERME SANTOS NEVES nasceu no dia 14 de setembro de 1906, na cidade de Baixo Guandu, ES. Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, exerceu as funções de Juiz do Trabalho e Professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Dedicou-se, de corpo e alma, ao estudo do Folclore, havendo publicado mais de cem livros e folhetos, entre os quais Cancioneiro capixaba de trovas populares (1949), Alto está e alto mora (1954), História popular do convento da Penha (1958), Folclore brasileiro: Espírito Santo (1959), Romanceiro capixaba (1980), Cantigas de Roda I e II (s/d), além de artigos e ensaios publicados em jornais e revistas especializadas. Foi membro do Conselho Nacional de Folclore. Faleceu em Vitória, ES, no dia 21 de novembro de 1989.

         Antes de falecer, já bastante idoso, o professor Guilherme Santos Neves, no período de 1980 a 1989, participou de algumas promoções do Clube dos Trovadores Capixabas, CTC, chegando a prefaciar o livro “O Trovismo Capixaba”, de Clério José Borges, publicado depois de sua morte, em 1990.

         Na Revista “Folclore”, órgão da Comissão Espirito-Santense de Folclore, número 92, publicada em agosto de 1979, o Professor Guilherme conta a história de Dalmácia Ferreira Nunes, uma mulher nascida em Caçaroca, pequena vila do interior de Cariacica, Espírito Santo que fora trabalhar como empregada doméstica em sua casa.

         Conta ele que Dalmacinha ou Macinha foi trabalhar em sua casa em março de 1946, ou seja três anos  antes do professor Guilherme publicar o seu livro “Cancioneiro Capixaba de Trovas Populares”.

         Dalmácia Ferreira Nunes era dotada de excelente memória. Humilde e de pouca instrução, tinha o privilégio, isto é, a qualidade de gravar com facilidade as cantigas e os versos que ouvia. Ouvira as cantigas e as Trovas de sua mãe e de suas tias, quando de noite se reuniam para conversar. Como naquele tempo as pessoas do interior não possuíam rádio e a televisão ainda não existia, pois só chegou no Brasil em 1950, o maior divertimento eram as reuniões que se faziam com as famílias durante a noite, no quintal das  casas do interior do Brasil.

         Assim as histórias, as cantigas e as Trovas eram contadas e cantadas pelos mais velhos e Dalmacinha, em Caçaroca, ainda criança, ia gravando-as na memória.

            Literatura Oral era a forma praticada pelos antigos que contavam histórias e recitavam Trovas  para os mais novos, numa época em que os livros eram raros, ou seja, quase não existiam. Assim Dalmacinha e muitas outras mulheres idosas e os conhecidos “pretos velhos” deste país, portadores de excelente memória, são os que dão excepcional contribuição para os pesquisadores, formando a Literatura Oral Brasileira.

         Dalmácia faleceu a 13 de Agosto de 1968, sendo enterrada, junto aos seus parentes, no cemitério de Barra do Jucu, então um povoado, hoje bairro importante e turístico de Vila Velha, Município da Grande Vitória.

         Na Revista já citada “Folclore”, de 1979, o artigo do professor Guilherme Santos Neves ocupa oito páginas. Ali estão 76 Trovas. Três estórias. Vinte e nove superstições e crendices, onde constam mais três Trovas e cinco Advinhas. O título é “Folclore de Caçaroca” e traz uma foto de uma senhora com um lenço na cabeça e a legenda: “Informante Dalmácia Ferreira Nunes.”

         A primeira Trova refere-se ao fato de que, segundo o Professor Guilherme, Dalmácia:

         “Para comentar um fato, registrar um instante, para fixar um sentimento, dizia sempre uma Trova. Alguém falava em viajar, e logo, lá vinha a Trova adequada:

                   Adeus, minha sempre-viva,

                        até quando nos veremos.

                        As pedras do mar se encontram,

                        assim nós também seremos…”

         Eis algumas Trovas Populares, resgatada do passado graças a oportuna pesquisa do Professor Guilherme Santos Neves e a memória de Dalmacinha e que constam do artigo publicado na Revista “Folclore”:

                  De correr venho cansada,

                        de cansada me assentei,

                        achei o que procurava,

                        agora  descansarei…

Abacate é fruta boa

enquanto não apodrece.

O amor é muito bom

enquanto não aborrece…

                        Atirei um limão doce

                        na menina da janela.

                        Ela me chamou de doido,

                        doidinho estava eu por ela.

Eu não quero Santo alheio

dentro do meu oratório.

Eu só quero meu santinho

prá fazer meu peditório…

                        Eu perguntei à Fortuna

                        de que é que eu viveria.

                        Ela foi me respondeu

                        que o tempo me ensinaria.

Eu plantei um pé de cravo

na janela do meu bem.

Todo mundo passa e cheira,

eu não sei que cheiro tem…

                        Menino se tu soubesses

                        o bem com que eu te adoro,

                        fazia dos braços remo,

                        remavas prá onde eu moro…

Já fui amada e querida

até das flores do campo.

Hoje me vejo desprezada

de quem eu queria tanto.

                        Quando eu entrei nesta casa,

                        logo vi cheia de rosa,

                        meu coração logo disse

                        que  aqui tem moça formosa…

Uma velha muito velha,

de tão velha se curvou.

Ouviu falar em casamento

a velha se endireitou…

                        Tanto verso que eu sabia,

                        veio o vento, carregou.

                        Só ficou-me na memória

                        o que meu bem me ensinou…

Vamos dar a despedida

como deu cachorro magro,

que encheu sua barriga

e foi sacudindo o rabo.

                        Vou pregar o teu retrato

                        na parede da escola.

                        Os dias que não te vejo

                        teu retrato me consola…

         É certo que Dalmácia ouviu as Trovas nas Cantigas de Roda lá na sua Terra Natal em Caçaroca. Ouviu e gravou-as em sua excelente memória.

         Ao ser formada a roda, alguém logo dizia: “Entra na roda, cante um verso e vá se embora”, a pessoa fazia a Trova na hora e lá estava Dalmácia para gravar, para registrar em sua excelente memória.

         Entre as Trovas coletadas de Dalmácia pelo Professor Guilherme, existe uma que se refere à própria brincadeira de roda, muito comum naqueles tempos:

                        Quando eu entro numa roda,

                        em lugar desconhecido,

                        quando eu vejo uma risada

                        acho logo que é comigo…

         É comum as superstições na Trova.

            Superstições são as crendices.

            As crendices se baseiam no sentimento religioso do povo.

         Entre as superstições que foram contadas por Dalmácia, constam as seguintes:

         1- “Moça fazendo café na barra da combinação (camisola), faz o namorado gostar dela.”

         2- “Ao ver, na roça, no interior, a Lua Nova em sua primeira noite, diz-se:

                        Deus te salve, Lua Nova,

                        lua de São Quelemente.

                        Quando fores, quando voltares,

                        livra-me da dor de dente…”

         A superstição continua. Também se diz esfregando os dedos para significar dinheiro:

                        Deus te salve, Lua Nova,

                        Lua de São Quelemente.

                        Quando fores, quando voltares,

                        trazei-me deste presente.

         Outra versão da Trova “Deus te salve” é:

                     Deus te salve, Lua Nova,

                        lua de boa ventura,

                        que me cresça o meu cabelo,

                        e me bata na cintura.

         Outra modalidade de Trovas é a Trova Advinha.

            A Trova Advinha é também cultivada pelos Trovadores atuais. Existem vários livros lançados recentemente. No Espírito Santo são destaque as obras da saudosa Trovadora Argentina Lopes Tristão, que residia na cidade de Domingos Martins e livro de Manoel Nahas Neto, lançado pela Lei Rubem Braga, da Prefeitura Municipal de Vitória.

         Entre as Trovas Advinhas, isto é, Trovas onde existe uma pergunta que se faz para que a pessoa descubra a resposta, segue uma recitada por Dalmácia:

                     Do chão saiu um eco,

                        até onde sua força deu.

                        Nos ares deu três suspiros,

                        virou as costas e morreu…

         A pessoa pensa um pouco e logo depois, se descobriu, fala a resposta.

         No caso da Trova Advinha acima, a resposta é Foguete.

TROVA ADVINHA

PERGUNTA:

Doze pretinhos formando

uma fila circular

mais um no centro acenando

para seus tempos marcar.

         ARGENTINA LOPES TRISTÃO, Domingos Martins, ES.

RESPOSTA:

Relógio! Fique parado!

não deixe o tempo passar…

eu quero ser enganado

quando a velhice chegar.

         AMÁLIA MAX, Ponta Grossa, Paraná.

VII

ORIGEM CAPIXABA

         O Estado do Espírito Santo ocupa uma área de 45.597 quilômetros quadrados, situando-se na região Sudeste do Brasil, limitando-se ao norte com a Bahia, a oeste com Minas Gerais, a leste com o Oceano Atlântico e ao sul com o Estado do Rio de Janeiro.

         O povoamento do Espírito Santo ocorreu com Vasco Fernandes Coutinho, um Português que recebera do Rei de Portugal uma porção de terra para habitar e desenvolver, chamada Capitania.

         Desde 1500, quando foi descoberto, o Brasil pertencia a Portugal. O Brasil era colônia de Portugal. Vasco Coutinho chegou à Capitania do Espírito Santo a 23 de maio de 1535, juntamente com 60 pessoas.

            O primeiro povoado foi chamado de Vila do Espírito Santo, onde hoje é a cidade de Vila Velha. O nome da Vila foi dado porque no dia 23 de maio daquele ano, a Igreja Católica Apostólica Romana comemorava a Festa do Divino Espírito Santo. Depois o mesmo nome foi dado a toda Capitania. Portanto o Espírito Santo passou a ser povoado, isto é, a ser habitado pelo homem branco português, no século XVI. A região começou a desenvolver-se, contudo, no século XIX, com o início da plantação de Café, principalmente no norte do Estado.

         A Capital do Estado do Espírito Santo é Vitória, fundada a 8 de setembro de 1551, no século XVI. Vitória é uma ilha e por existir nesta ilha uma importante Plantação de Milho, quem residia na Ilha era chamado de Capixaba. Hoje o termo Capixaba refere-se a todos nascidos no Estado do Espírito Santo.

         No século XVI já eram encontradas várias Trovas em refrões de Cantigas religiosas nos países da Europa, principalmente Portugal e Espanha. Também no século XVI, o mesmo da colonização do Estado do Espírito Santo, Luís Vaz de Camões fazia Trovas em Portugal.

         Em 1889, no dia 20 de janeiro, o jornal “A Província do Espírito Santo”  publicava uma notícia de que uma senhora da Sociedade Vitoriense enviara para a redação daquele jornal, “magnífica coletânea de versos anônimos, frutos da inspiração alegre e travessa da musa popular.”

         Seguem-se Trovas na primeira página daquele jornal. Em edições seguintes são transcritas mais Trovas.

         O  Jornal “A Província  do Espírito Santo” foi fundado por Cleto Nunes Pereira e José de Mello Carvalho Muniz Freire. Circulava, isto é, era feito e colocado para apreciação dos interessados, inicialmente três vezes por semana. Em 1889 já circulava todos os dias, exceto um, destinado ao descanso dos jornalistas da Redação, ou seja, do lugar onde o jornal é escrito. Aos Domingos, a primeira página do Jornal era dedicada a Literatura, isto é, dedicada a divulgação de textos literários, com crônicas, artigos e poesias.

            Crônicas, são textos literários não muito longo, geralmente relatando um acontecimento.

            Artigos em Jornal significa um escrito. Um texto. Textos são palavras escritas para demonstrar alguma coisa.

         O Jornal possuía o nome de Província, por que ao tempo do Império, o Brasil era dividido em províncias.

            O Jornal “A Província do Espírito Santo” circulou pela primeira vez em 15 de março de 1882. Com o advento, isto é, com o surgimento da República, passou a se chamar “Diário do Espírito Santo” e depois “O Estado do Espírito Santo.”

         O Jornal de 20 de Janeiro de 1889 era um jornal de Domingo. Tinha o número 1.851 e trazia na primeira página artigos literários. Na parte de cima o nome do jornal e logo abaixo: “Diário consagrado aos interesses provinciais.” Em seguida trazia: “Órgão do Partido Liberal”.

            O Partido Liberal era um partido político da época.

         Havia também a indicação do número de jornais que tinham sido feitos naquele dia: 1.600. O Jornal tinha 4 páginas. No lado esquerdo de quem lê, lá está o título: “Musa Popular – Cancioneiro Espírito – Santense.”

         A palavra Musa significa aquilo que pode inspirar um poeta.

         Cancioneiro é quem faz canções, quem faz poesias.

         Espirito – Santense é o nascido no Espírito Santo.

         O Jornal do dia 20, traz seis Trovas. Transcrevo as três primeiras Trovas publicadas. São apresentadas como populares, isto é oriunda do povo, não havendo indicação de quem fez as Trovas:

                        Os raios do céu me partam

                        as estrelas me façam em pó;

                        a luz do dia me falte

                        se eu não amo a ti só.

Quem quer bem às escondidas

grandes tormentos padece,

passando por ser bemzinho

fazendo que não o conhece.

                        Ainda depois de morta,

                        debaixo do frio chão,

                        acharás teu nome escrito

                        no meu terno coração.

         Na primeira página, várias poesias, entre os quais uma de Raymundo Correia.

            Raymundo Correia, escritor brasileiro que foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, nascido no Estado do Maranhão em 11 de maio de 1859 e falecido na cidade de Paris, na França em 13 de setembro de 1911. Era um dos mais líricos poetas e deixou um soneto bastante divulgado até os dias de hoje, denominado “As Pombas.”

            Vai-se a primeira pomba despertada…

            Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas

            De pombas vão-se dos pombais, apenas

            Raia sanguínea e fresca a madrugada…

            E à tarde, quando a rígida nortada

            Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,

            Ruflando as asas, sacudindo as penas,

            Voltam todas em bando e em revoada…

            Também dos corações onde abotoam,

            Os sonhos, um por um, céleres voam,

            Como voam as pombas dos pombais;

            No azul da adolescência as asas soltam,

            Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,

            E eles aos corações não voltam mais…

No Domingo seguinte, 27 de Janeiro de 1889, o Jornal “A Província do Espírito Santo” de número 1857, trazia na primeira página com o mesmo título: “Musa Popular – Cancioneiro Espírito – Santense”, mais de dez Trovas sem a indicação da autoria, isto é, de quem as fez. A primeira delas é a seguinte:

                     Você diz que eu sou sua

                        eu sou sua, mas não sei.

                        O mundo dá muitas voltas

                        eu não sei de quem serei.

         Nova publicação só ocorre no domingo 10 de Fevereiro de 1889. O Jornal é o de número 1868 e lá estão mais 11 Trovas. A primeira delas é a seguinte:

                     As estrelas miudinhas

                        fazem o céu muito composto

                        nunca pude, meu benzinho

                        falar contigo a meu gosto.

         Nos números seguintes, sempre na página literária do Domingo, localizada na capa, isto é, na primeira página do Jornal, são publicadas mais Trovas.

         A tal senhora da Sociedade de Vitória, que mandara para a redação do Jornal a “magnífica coletânea de versos anônimos.” acabou não sendo identificada pelo Jornal.

            Coletânea significa conjunto de textos selecionados de diversas obras de diversos autores.

            Versos Anônimos são versos de autoria desconhecida. Não se sabe quem os fez.

VIII

AS PRIMEIRAS OBRAS

         O primeiro coletor de Trovas Populares em terras capixabas, com registros nos anais da história, foi o primeiro Governador Republicano, Afonso Cláudio de Freitas Rosa, que publicou no Rio de Janeiro, em 1921, o livro “Trovas e Cantares Capixabas”, no qual reuniu 21 Trovas. Eis duas delas:

                        Mandei fazer um barquinho,

                        da casca do camarão,

                        o barco saiu pequeno,

                        só coube meu coração.

Você diz que mal de amor,

não mata quem está alerta;

Pois eu ouvi de um doutor,

Que amar é ter cova aberta.

            Afonso Cláudio nasceu na antiga Província do Espírito Santo, Freguesia da Barra do Mangarai, do Município de Porto Cachoeiro de Santa Leopoldina, na Fazenda de Mangaraí, em 2 de agosto de 1859. Estudou nas Faculdades de Direito de Recife e depois São Paulo. Tomou posse como primeiro Governador do Estado a 20 de novembro de 1889. Publicou vários livros. Faleceu no Rio de Janeiro a 16 de Junho de 1934.

            O livro “Trovas e Cantares Capixabas”  teve a sua primeira edição publicada em 1923. A obra possui Trovas, ditados populares, contos, provérbios, etc. Em 1980 foi publicada uma segunda edição da obra, pelo Instituto Nacional do Folclore.

         De 1923 a 1956 a Trova Literária, feita por poetas conhecidos, passa a ser bastante divulgada pela Revista “Vida Capichaba”, que publicava trabalhos de autores Espírito-Santenses, entre eles, Teixeira Leite:

                        Em meus amores diviso

                        um de mais sinceridade:

                        O que nasceu de um sorriso

                        e vive de uma saudade.

            Manuel Teixeira Leite, nascido em Prado, Bahia a 6 de fevereiro de 1891. Poeta, jornalista e contista. Membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Publicou entre outros livros: Fidelis, em 1927; Vitória, 1928 e Serenatas, 1930.

         Ciro Vieira da Cunha, que nasceu em Sorocaba, São Paulo, a 1º de Junho de 1897, tendo falecido no Rio de Janeiro a 28 de Junho de 1976. Poeta, Biógrafo, Jornalista e Médico. Membro da Academia Espirito-Santense de Letras. Publicou entre outros livros: Espera Inútil, 1933; Sinfonia das Ruas de Vitória, 1943 (com Eugênio Sette); Memórias de um Médico da Roça, 1965.

         Ciro também publicava suas Trovas na Revista “Vida Capixaba”:

                        No destino das palmeiras

                        mora um exemplo também

                        viver silenciosamente

                        sem fazer sombra a ninguém.

            Antigamente Capixaba era escrito com “ch”. Após 1940, devido as reformas ortográficas ocorridas no Brasil, as palavras que eram escritas com “ch” ou “ph”  foram modificadas. O “ch” foi substituído pelo “x” e o “ph”, pelo “f”. A Revista tinha a direção de M. Lopes Pimenta, tendo José Luís Holzmeister como Redator Chefe e F. Eugênio de Assis como Redator. A Gerência era de José Tovar Pimenta. A redação era na Av. Capixaba, 132, em Vitória. “Vida Capichaba” foi fundada em 1923.

         O movimento poético então florescia e, em 1938, a Revista “Vida Capichaba” movimentou o meio literário com um Concurso de Trovas, saindo vencedor o poeta Nilo Aparecida Pinto, cultor entusiástico da Trova, com o seguinte trabalho:

                        O ocaso traz tantas mágoas,

                        que o mar, buscando esquecê-las,

                        espana o espelho das águas

                        para o baile das estrelas.

         Nilo Aparecida Pinto não era Capixaba, mas viveu parte da infância e juventude no Espírito Santo, tendo residido em Colatina e Vitória.

            Nilo Aparecida Pinto nasceu em Caratinga, MG, a 23 de Junho de 1915, tendo falecido no Rio de Janeiro a 15 de Janeiro de 1974. Poeta, Trovador, Jornalista. Membro da Academia Mineira de Letras. Publicou entre outros livros: Meu Coração em Cantigas, 1940 ( Trovas ); Poesias Escolhidas, 1944 ; Rosa de Saron, 1952 e Sonetos, 1968.

Em 1940, Nilo Aparecida Pinto, transferiu-se para Belo Horizonte e ali publicou trovas que escrevera e divulgara em Vitória, como estas:

                     O bambu como muita gente

                        se parece, no feitio:

                        Por fora – é belo e imponente,

                        por dentro – é oco e vazio…

Sendo o violão de madeira

há de entender nossa dor,

que também foi de madeira

a cruz de Nosso Senhor.

                        Das dores que o tempo aguça

                        a mais triste eu desconfio

                        ser o da mãe que soluça

                        junto de um berço vazio.

         Observando-se a história do Movimento em torno da Trova no Espírito Santo, verifica-se que cronologicamente ocorreram os seguintes eventos:

         Em 20 de Janeiro de 1889 – O Jornal A Província do Espírito Santo, publica Trova Populares.

         Nas edições seguintes são publicadas mais Trovas.

         Em 1921, Afonso Cláudio influenciado pelos negros escravos da Fazenda do seu pai em Mangarai, Santa Leopoldina, publica “Trovas e Cantares Capixabas”, onde são reunidas 21 Trovas Populares.

         De 1923 a 1956 são publicada Trovas de autores capixabas e brasileiros, em várias edições da Revista Capichaba.

         A Revista passa a ser o principal órgão divulgador dos Poetas, divulgando seus trabalhos junto com notícias políticas e sociais da época. A edição de nº 671, de Janeiro de 1948, apresenta uma página inteira com o título: “Meus Irmãos os Trovadores. Antologia em organização de Luís Otávio – Lilinha Fernandes.”  É divulgada a biografia de Lilinha Fernandes, com a informação de que seu nome verdadeiro é Maria das Dores Fernandes Ribeiro e que tem inédito o livro “Flores do Agreste.” Seguem-se várias Trovas. A primeira é:

                   Chorei na infância insofrida

                        para ir na roda cantar:

                        hoje, na roda da vida

                        eu canto p’ra não chorar.

         Na Revista de Março de 1948, de nº 673, são divulgadas oito Trovas  com os títulos: “Cantigas D’Amor” e “Cantigas D’Amigo”, de Renato J. Costa Pacheco, da Academia Capixaba dos Novos. Eis uma Trova:

                   Senhor meu! Não vás agora…

                        Beija de novo a donzela

                        que por ti chorou e chora

                        e que muito se desvela.

            Renato José da Costa Pacheco, nascido em Vitória a 16 de Dezembro de 1928, membro fundador da Academia Espirito-Santense de Letras. Autor de vários livros. Em 1980 quando da fundação do Clube dos Trovadores Capixabas, CTC, era Presidente da Fundação Cultural do Espírito Santo, tendo dado todo o apoio possível e necessário ao CTC, realizando inclusive o Primeiro Concurso de Trovas com os temas: Vitória, Capixaba e Anchieta.

         Em 1937, o mineiro de nascimento, “mas capixaba de coração”, José Coelho de Almeida Cousin, nascido em 1897, publica “Naufrágios”, publica versos de sua autoria feitos no período de 1920 a 1930. No livro constam seis Trovas sob o título de “Canção.”

         Em 1949, Guilherme Santos Neves publica o livro “Cancioneiro Capixaba de Trovas Populares”, onde reúne mil Trovas: “Colhidas em várias fontes aqui e ali, em Terras Capixabas, visando principalmente evitar que elas extraviem e se percam como tantas bonitas tradições do nosso povo.”

         Eis três Trovas coletadas por Guilherme Santos Neves mostrando o gosto dos Capixabas em manifestar suas emoções e anseios através da Trova:

                     No caminho de Vitória

                        tem subida e tem descida,

                        também tem um moreninho,

                        perdição de minha vida.

No morro de Vila Velha

trovejou mas não choveu.

De Vila Velha prá lá

o Manda-Chuva sou eu.

                        Quem me dera estar agora

                        onde está meu pensamento:

                        Na cidade de Vitória,

                        na ladeira do Convento.

Minha mãe não quer que coma

muquequinha de siri.

O meu pai não quer que eu case

com rapaz de Itaquari.

       Ainda do Cancioneiro capixaba de trovas populares, por Guilherme Santos Neves, constam estas quadrinhas:

A folha da bananeira

Bota verde, cai madura

Assegura sua palavra

Que a minha está segura

A folha da bananeira

De comprida foi ao chão

Mais comprida foi a fita

Que laçou meu coração

Bananeira é mulher rica

Pelos filhos que ela tem

Corta o cacho, morre a mãe

Fica os filhos sem ninguém

E vem a lua saindo

Por detrás da bananeira

Já me dói o céu da boca

De beijar moça solteira

A folha da bananeira

De comprida amarelou

A boca do meu benzinho

De tão doce açucarou

A folha da bananeira

De tão grande foi ao chão

Quem tiver língua comprida

Faça dela um currião

Eu nunca vi bananeira

Soltar cacho na raiz

Nunca vi rapaz solteiro

Ter palavra no que diz

Lá vem o sol entrando

Por cima da bananeira

Dá lembrança à minha gente

Minha mãe seja a primeira.

         O saudoso Professor Guilherme Santos Neves recolhia algumas trovas populares. Eis algumas sobre o Convento de Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha, ES:

Fui no convento da Penha,

Visitar a Mãe querida.

Agora eu posso dizer

Que já fui ao Céu em vida!

Fui no convento da Penha,

Todos subiram, eu fiquei…

Dai-me a mão, Nossa Senhora,

Que eu também subirei…

Nossa Senhora da Penha

Tem o seu manto de alegria.

Deus lhe deu os seus soldados

Pra defender a baía.

Sobre esta última trova, salienta Guilherme Santos Neves que sua fonte de inspiração deve estar ligada “à conhecida lenda do ataque holandês a Vila Velha, repelido por misterioso exército – os soldados da Virgem – o qual, dentre as nuvens, surgiu, desbaratando os invasores”.

                   Em 1951, Paulo Freitas publica “Poesia da Saudade”. O livro é feito na  Gráfica Mimosense Ltda., da cidade do sul do Espírito Santo, Mimoso do Sul. Possui 42 páginas com 123 Trovas. Eis, respectivamente a primeira e a última delas:

                   Saudade – renda de espumas,

                        adeus dos barcos veleiros…

                        No Rosário das Estrelas,

                        a prece dos Jangadeiros…

Saudade – canção das ondas

nos lábios da noite fria,

quando as estrelas refletem

lindos olhos de Maria…

         Em 1953, Paulo Freitas publica 256 Trovas de sua autoria, na obra “Rosário de Estrelas.” Em 1965 mais Trovas são divulgadas no livro “A Monja de  Lisieux.”

            Paulo Atayde de Freitas nasceu em Rio Novo do Sul, ES, a 28 de Janeiro de 1902. Foi Juiz de Direito e membro da Academia Espirito-Santense de Letras e do Grêmio Brasileiro de Trovadores. Sua primeira obra publicada foi Volúpia das Rosas, em 1928. Em 1966, publicou o seu 14º livro, Breviário do Trovador. Participou de várias antologias de Poesias e Trovas. Em 1980, alguns anos antes de falecer,  associou-se ao Clube dos Trovadores Capixabas, CTC.

         Em 1957, Solimar de Oliveira publica “Sangrando Mágoas…”, pequeno livrinho editado na Gráfica Tupy Ltda, do Rio de Janeiro, com 101 Trovas em 40 páginas. Duas Trovas:

                   Curvo-me ao fado perverso,

                        como te confesso assim:

                        – Sempre a buscar-te em meu verso,

                        sempre a fugires de mim!

E aqui deixo a última nota

destas Trovas, coração:

– Eu, no amor, só vi derrota,

engano, nada, ilusão…

            Solimar Braga de Oliveira nasceu em Juiz de Fora, MG a 5 de agosto de 1913. Poeta, Trovador, Contista. Membro da Academia Cachoeirense de Letras e várias outras entidades no Brasil. Publicou vários livros sendo o primeiro, Ilha da Luz, em 1947.  Em 1980 associou-se também ao Clube dos Trovadores Capixabas. Já falecido.

         Também em 1957, o Jornalista Mesquita Neto publica pela Tipografia “Taneco”, da Vila Rubim, em Vitória: “Rua do Coração”. Na página 25 constam algumas Trovas. Eis duas delas:

                        Pediste-me de tal jeito

                        uns versos, uma poesia,

                        que vou dizer satisfeito

                        tudo aquilo que queria.

O teu cabelo tão louro

e essa pele cor de rosa

constituem rimas de ouro

de uma poesia formosa.

            Mesquita Neto é pseudônimo de Otávio José de Mendonça  que nasceu em Penedo, Alagoas, a 12 de Maio de 1901 tendo falecido  no Rio de Janeiro a 13 de Março de 1975. Poeta, Cronista, Contista e Jornalista. Trabalhou durante muitos anos  em São Mateus e depois Vitória – ES. Publicou vários livros, entre os quais “A Verdade Nua e Crua”, em 1968.

         Em 1958, o Trovador Nordestino Filho, pseudônimo de Raymundo Estevão Pereira publica “Relicário – Quadras e Trovas”. Em 1962 publica “Tudo Azul” e em 1967, “Predestinação – Trovas e Prosa”:

                     Mesmo ovelha transviada,

                        que vive longe do aprisco,

                        conservo na alma, guardada,

                        tua imagem, São Francisco.

         Outras Trovas de Nordestino Filho:

Ninguém, por certo, ninguém

estimar pode, sequer,

os abismos que contém

um coração de mulher!

Muitas vezes num soneto

não encontro idéias minhas,

mas o faço numa trova,

em apenas quatro linhas.

Sempre que afago, meu bem,

as tuas mãos delicadas,

as minhas ficam também

suavemente perfumadas…

A minha grande tristeza

nem eu sei de onde é que vem,

mas creio que, com certeza,

vem de ti – de teu desdém.

A gatinha irreprimível,

que molha um rosto qualquer,

torna-se uma arma terrível,

quando o rosto é de mulher.

            Nordestino Filho, pseudônimo de Raimundo Estevão Pereira, nasceu em Viçosa, no Estado do Ceará, a 24/05/1900, filho de José Estevão Pereira e de Joaquina Maria Pereira. Transferiu sua residência para o Espírito Santo desde 1925, sendo, em Cachoeiro do Itapemirim, um dos fundadores da Academia Cachoeirense de Letras, onde ocupou a cadeira n. 10, cujo patrono é Sylvio Rangel. Autor de inúmeras plaquetas, inserindo sonetos e trovas, gêneros de sua preferência. Faleceu em Guarapari, 19/03/1982, após ter se filiado em 1980 ao Clube dos Trovadores Capixabas, CTC.

         Em 1962, Alberto Isaías Ramires publica “Cantigas de um Trovador”, seguindo-se várias obras entre as quais, “Cantigas do Coração”, em 1964e, a antologia, “Vitória, Sonho, Amor e Poesia”, em 1969.

                   Trovas de A. Isaías Ramires:

                   Vitória – Ilha do mel

                        que nos deslumbra e extasia.

                        Um pedacinho de céu

                        que é sonho, amor e poesia…

Saudade – um berço vazio,

uma lágrima, uma dor;

coração sentindo frio

longe da chama do amor…

                        A trova boa e perfeita

                        tem, na sua formação,

                        um pouco de pensamento,

                        um pouco de coração.

Passam dias, meses, anos…

Quem na vida, nada alcança

deve sempre aos desenganos

antepor uma esperança.

                        Sobre o amor já se tem dito

                        muita coisa de valor;

                        mas bem poucos, acredito

                        sabem mesmo o que é o amor.

Semeia por onde fores,

bondade, amor e carinho;

e transformarás em flores

as pedras do teu caminho.

            Alberto Isaías Ramires, filho de João Ramires e de Francelina Evangelista Ramires, nasceu em Vila Velha, Espírito Santo, em 8 de setembro de 1924.  Capitão da RR do Exército Nacional. Trovador e jornalista. Autor de Narciso Araújo, o solitário de Itapemirim e de Vitória, sonho, amor e poesia. Poeta, Trovador, Prosador, Jornalista e Militar. Membros de diversas Academias de Letras. Já falecido. Foi Sócio do Clube dos Trovadores Capixabas, CTC.

         O Professor Kosciuscko Barbosa Leão, em 1973, publica “Travos em Trovas”, reunindo Trovas de sua autoria. Eis uma das Trovas:

         Não sei qual mais enalteça

            dos dois extremos: se o pé

            ou, ainda, se a cabeça.

            Essa é Ruy, o outro é Pelé.

            Kosciuscko Nasceu em Santa Cruz, distrito do município de Aracruz, no Estado do Espírito Santo, a 12/09/1889. Filho de Miguel Barbosa Leão e Ana Barbosa Leão. Poeta, trovador, teatrólogo, jornalista, advogado. Faleceu em Vitória, ES, a 20 de Maio de 1979. Membro da Academia Espírito-Santense de Letras.

         No Rio de Janeiro, em 1976, pela Gráfica e Editora Olímpica, Elmo Elton, publica 100 Trovas no seu livro, “Cantigas.”

São lidos, por cortesia,

teus versos de cunho novo,

mas as minhas cantiguinhas

andam na boca do povo.

            Elmo Elton Santos Zamprogno, poeta, trovador, ensaísta, historiador, jornalista, nasceu em Vitória, capital do Estado do Espírito Santo, a 15/02/1925, filho de Fernando Zamprogno e de Adolphina Santos Zamprogno. Faleceu em 24/01/1988. Em eleição realizada entre os sócios do Clube dos Trovadores Capixabas, CTC em 1981, foi eleito Rei dos Trovadores Capixabas. Na eleição, Andrade Sucupira e Clério Borges foram eleitos Príncipes e Maria Beatriz de Figueiredo Abaurre, a Rainha. Publicou vários livros. Em 1947 foi classificado em 2º Lugar no Concurso “Melhor Poeta Espirito-Santense.”

         Em 1977, a escritora Maria Stella de Novaes publica o livro de poesias “Saudade”, onde apresenta várias Trovas:

Por que lamúrias infindas,

se a vida tem seus caminhos?

Vejamos as rosas lindas,

acima dos seus espinhos.

Dizem que a maior pobreza

do mundo, em dia presente,

não é falta de dinheiro

é de vergonha, somente.

            Maria Stella de Novaes nasceu a 18/08/1894 no município de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro, filha de Manuel Leite de Novaes e de Maria Souza de Novaes Melo. Radicada no Espírito Santo desde tenra idade. Realizou diversos trabalhos de História do Espírito Santo. Folclore. É autora de mais de cinqüenta publicações, a maioria versando sobre temas capixabas. Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e outras instituições culturais do país e do estrangeiro. Patrona da cadeira n. 4 da Academia Feminina Espírito-santense de Letras. Morreu em 1981.

IX

UBT DE VITÓRIA

         A União Brasileira de Trovadores, UBT, é uma entidade cultural nascida de uma cisão do Grêmio Brasileiro de Trovadores fundado na Bahia por Rodolfo Coelho Cavalcante, em Janeiro de 1958, que reunia não só Cordelistas e Repentistas, como também os Trovadores Literários. Cisão: Divergência; Separação. As seções dos GBT na Região Sul e Centro-Oeste do Brasil transformam-se nas seções da UBT que são todas instaladas em Janeiro de 1967.   A UBT passou a ser Presidida Nacionalmente por Luís Otávio, pseudônimo do Cirurgião Dentista, Gilson de Castro. Luís Otávio nasceu no Rio de Janeiro a 18 de Julho de 1916. Faleceu em Santos – SP.

A UBT também teve a sua cisão. Um grupo liderado por Symaco da Costa, Felix Ayres e Paula Faria, não concordando com as posições de Luiz Otávio, funda a Academia Brasileira da Trova, no Rio de Janeiro. É lançado o Jornal “O Adelmarista”, que critica abertamente os Concursos denominados Jogos Florais da UBT.

         A edição de 7 de Janeiro de 1967 do Caderno Literário do Jornal “A Gazeta”, de Vitória – ES, publica  uma página de Trovas de diversos Trovadores Brasileiros, entre os quais, A.A. de Assis, de Maringá – PR e Alfredo de Castro. Na mesma edição é publicado o soneto “Apelo”, de Eno Teodoro Wanke. Junto com o Caderno Literário, o Jornal “A Gazeta”, publicava naquele dia o Suplemento Infantil, A Gazetinha, que trazia um conto infantil de Clério José Borges, com o título “Três Desejos.” O Professor José Augusto de Carvalho era assíduo colaborador do Jornal “A Gazeta”, de Vitória. Luiz Otávio nomeara José Augusto, Delegado da UBT  em Vitória.

         Na edição de “A Gazeta”, de 8 de Janeiro, no Suplemento Dominical, “Semanário”  é publicada a coluna “Trovas”  do Professor José Augusto de Carvalho, com várias informações. Trata-se de uma coluna noticiosa. Entre as notícias consta:

         1- A. Isaías Ramires anuncia que prepara no Rio uma antologia de Poemas sobre Vitória.

         2- No Terceiro Jogos Florais de Valença, com o tema Beleza  um dos vencedores é o Trovador Capixaba, Miguel Depes Tallon, com a Trova:

                   Beleza é flor esquecida

                        numa página amarela.

                        Um “amo-te minha vida”

                        seguido do nome dela.

         Já no fim de semana seguinte, a coluna Trovas  muda de dia e de Suplemento. Não é mais divulgada no Suplemento Dominical Semanário.

         O Caderno Literário tinha como responsável o Jornalista Darly Santos e circulava dentro do Jornal “A Gazeta”, nas edições de sábado. 

         José Augusto inicia uma Campanha para a instalação da Seção de Vitória da União Brasileira de Trovadores e publica no sábado, dia 14 de Janeiro de 1967,  no Caderno Literário, uma carta de Zedânove Tavares, de Vila Velha, com Trovas. Na mesma coluna, logo abaixo, um cupom de filiação de Trovadores, para ser preenchido e encaminhado para a Rua Quintino Bocaiúva, 16, Aptº 1302 – Edf. Navemar – Vitória.

         Nesta mesma edição de 14 de Janeiro, ao lado da coluna, o Caderno Literário, divulga Trovas de Eno Teodoro Wanke, de seu livro “Dicionário Quadrado.”

         Nos sábados seguintes são publicadas mais colunas do Professor José Augusto, com o título: Trovas. 

         Em 21 de Janeiro são anunciados mais dois Trovadores que aderiram a idéia da criação da seção da UBT: Renato Bastos Vieira, de Vitória  e Aylmer de Martins, de Cariacica. José Augusto começa a receber os cupons preenchidos da Capital e interior. Um dos Trovadores do interior é Ednes Rangel, de Alfredo Chaves, cidade situada no sul do Estado.

         No sábado, 4 de Fevereiro, nova carta de Renato Bastos Vieira é publicada, seguindo-se uma carta do Trovador Albércio Vieira Machado,  do bairro Ibes, Vila Velha, que mandara o cupom preenchido e algumas Trovas. É publicada uma Trova de Albércio:

                   Eu não sabia, querida,

                        que esses lindo olhos teus

                        fossem tanto em minha vida

                        a vida dos olhos meus.

         Já no dia 11 de Março de 1967, a coluna Trovas, publica no item I, nova carta de Zedânove Tavares onde informa que está remetendo o cupom e mais Trovas. No item III da referida coluna a notícia:

         “O Trovador Clério José, de Vila Velha inicia-se na Trova com um pedido justo:

                        U’a luz ao longe aparece

                        pois nunca é tarde demais

                        para atender a uma prece

                        pedindo Jogos Florais.”

         Nas edições seguintes da coluna Trovas, surgem novos nomes de Trovadores, até que José Augusto marca a data de fundação da UBT de Vitória, para o dia 22 de abril de 1967, na sua própria residência em Vitória, na Rua Quintino Bocaiúva, 16, Aptº 1302, Edf. Navemar.  Entre os presentes, Carlos Dorsch, Osmar Silva e Miguel Depes Tallon.

         Zedânove Tavares Sucupira e Clério José Borges também ali comparecem: 

         “Estávamos na faixa dos 17 aos 19 anos e chegamos atrasados na reunião, uma vez que levamos bom tempo para decidirmos se colocávamos paletó ou não. Decidido pelo uso do Paletó, tivemos que arranjar emprestado com amigos. Já sabíamos que na reunião estariam figuras de destaque na Cultura Capixaba da época, daí a preocupação com o visual. Ao chegarmos, a reunião já estava no seu final e o Prof. José Augusto de Carvalho foi logo anunciando: – Pelo conjunto de suas Trovas, você Zedânove foi eleito primeiro Presidente da UBT seção de Vitória.”

         Assim de 1967 a 1968, Zedânove Tavares Sucupira presidiu a Seção de Vitória da União Brasileira de Trovadores, fato comunicado oficialmente a Luís Otávio no Rio de Janeiro e divulgado no Jornal oficial da entidade nacional.

         A fundação da UBT Vitória e a coluna Trovas de “A Gazeta” acaba fazendo tanto sucesso que a UBT nomeia Delegados em Cachoeiro de Itapemirim e Alegre, cidades ao Sul do Estado e mais afastadas da Capital Vitória. Em Alegre é nomeado Delegado do UBT, o Poeta Evandro Moreira, que nos meses de agosto e setembro de 1967, promove os Primeiros Jogos Florais de Alegre, com grande participação de Trovadores Brasileiros.

         Na UBT de Vitória, Zedânove, encontra dificuldades de ordem financeira, já que todos eram jovens e ainda estudantes sem emprego definido. Surge então, Geraldo Nascimento.

         Geraldo possuía um Escritório de Contabilidade, dispondo pois de recursos financeiros para manter a entidade. Passa a ser o mantenedor da entidade, pagando pequenas despesas de Correio e colocando seu escritório, com máquina de escrever, à disposição dos Trovadores. Motivado, começou a fazer Trovas e participar ativamente das promoções da UBT.

         Zedânove organizou a Diretoria e promoveu reuniões periódicas, mantendo contatos com o então Diretor do Departamento de Cultura de Vitória, Marien Calixte, visando a realização, dos Primeiros Jogos Florais de Vitória,  que acabou não sendo concretizado por falta de verbas.

         No dia 14 de Outubro de 1967, a UBT de Vila Velha promove um Júri Simulado. 

         O Júri foi realizado na Sala de Sessões “Getúlio Vargas”, da Câmara Municipal de Vila Velha, cedida gentilmente pelo seu então Presidente, Vereador Henrique Rímolo. O tema era a existência ou não de Plágio, na semelhança entre uma Trova de Alberto Isaías Ramires, publicada no livro “Cantigas do Coração”, de 1964:

                   Ao clarão da lua cheia,

                        numa noite de calor,

                        vi as ondas sobre a areia,

                        compondo versos de amor.

         E a Trova do Trovador iniciante Antônio Otacílio Peterle, publicada na seção Trovas, de José Augusto de Carvalho, no Caderno Literário, de “A Gazeta”, no dia 8 de abril de 1967:

                   Sob a bela lua cheia,

                        eu a beijei com calor.

                        E vi as ondas na areia,

                        fazendo versos de amor.

         A promoção foi cuidada de formalidades. Foi feito Convite Especial para as autoridades. O Banco dos Réus foi organizado com políticos, professores e pessoas de destaque na vida Social de Vila Velha: Moacir Carvalho; Henrique Rímolo; Aílton de Almeida; Audifax de Almeida Cavalcanti, Wilson Calmon Alves; Rubens Martinelli e Jorge Góes Coutinho, que no final de 2006, na ausência do Governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, assumiu o Governo do Estado por ser Presidente do egrégio Tribunal de Justiça. Como Juiz, do referido Júri Simulado, os organizadores convidaram o advogado militante, Dr. Antônio Carlos Barcellos.

         Os debates foram empolgados. Na acusação Geraldo Nascimento e Clério José Borges. Na defesa Zedânove Tavares e Gerson Fernandes da Silveira Novaes. Os ânimos chegaram a ficar exaltados pois cada qual procurava defender a sua tese de forma empolgante. Ao final, o resultado: Sete a Zero para a Defesa. A Acusação sob protesto continuava chamando de Plagiador,  o Poeta Antônio Otacílio Peterle, que para colaborar com a promoção sentara-se na cadeira destinada ao réu, como ocorre num Júri de verdade.

         O sucesso do Júri foi tanto que a 29 de Junho de 1968, a UBT foi convidada a reprisá-lo em Cachoeiro de Itapemirim, no Auditório da Casa do Estudante, no dia de aniversário daquela importante cidade do Sul do Estado. O convite foi feito pelo então Presidente da Academia Cachoeirense de Letras, Poeta Solimar de Oliveira. A notícia foi divulgada no Jornal “A Tribuna”, de 20 de Junho de 1968, que informava que na acusação estariam Geraldo Nascimento e Clério José Borges. Na Defesa, Zedânove Tavares e Maria Alneci Cerutti. O resultado final foi de quatro a três, favorável a Defesa. O Júri propiciava a discussão do tema: “Plágio ou Semelhança de Idéias?” A acusação defendia a tese do Plágio. Já a defesa considerava que não ocorrera Plágio e sim “semelhança de idéias.”

         A UBT, por força de seu Estatuto, promovia eleições de dois em dois anos. Uma nova Diretoria foi formada e eleita. A Diretoria eleita  tomou posse no sábado,  dia 29 de março de 1969, em solenidade na sede da Academia de Letras “Humberto de Campos”, na rua 23 de maio, nº 87 – Prainha – Vila Velha.

A Diretoria biênio 1969 / 1970 era: Presidente: Geraldo Nascimento; Vice – Presidente de Administração: Clério José Borges; Vice – Presidente de Cultura: Magaly Andrade Falcão; Vice – Presidente de Relações Públicas: Deumir Da Rós; Suplente: Albércio Vieira Machado; Conselho Municipal: Samuel Rodrigues de Souza; Henrique José Vivas Brandão e José Augusto de Carvalho. Suplentes: Carlos Dorsch, Alfredo Gualandi da Silva Neto e Getúlio Santos Soares.

         Geraldo conseguiu divulgar a entidade em Vitória e Vila Velha e por serem os membros da Diretoria, em sua maioria, residentes em Vila Velha, a entidade realizava suas reuniões em Vila Velha, passando a denominar-se Seção de Vitória e Vila Velha da UBT.

         No biênio 1971 – 1972, Clério José Borges de Sant’Anna é eleito  Presidente da UBT. Como Vice fica Geraldo Nascimento. Um dos primeiros atos foi comunicar a Direção Nacional da UBT a necessidade de optarmos por uma única denominação. A idéia e logo acolhida e fica então definido que a entidade passaria a chamar-se tão somente de Seção de Vila Velha da União Brasileira de Trovadores. Vitória ficava sem nenhuma seção.

         Clério acabou popularizando a entidade. Promoveu palestras nas Escolas, Cursos Informativos, sem fins lucrativos, para estudantes e reuniões mensais da UBT, na sede da Academia de Letras “Humberto de Campos”, cedida como sede provisória da UBT de Vila Velha pelo então Presidente daquela entidade, Saturnino Rangel Mauro, cujo filho, Max Mauro era Prefeito de Vila Velha e posteriormente seria eleito Governador do Estado do Espírito Santo.

         A terceira Diretoria da UBT tomou posse a 22 de Abril de 1971 e em Maio lançava uma candidata, Maria Amália Gozze, ao Concurso Miss Espírito Santo, de 1971. Os Concursos de Beleza de jovens garotas, denominadas Misses estavam em evidência na época e as disputas eram acirradas, com mais de três dezenas de candidatas. A UBT ganhou divulgação na imprensa e nos Ginásios onde a candidatava se apresentava. Os Ginásios estavam  sempre lotados com centenas de pessoas.

         No dia 15 de Julho de 1971, a UBT Capixaba realizava no Colégio dos Irmãos Maristas de Vila Velha, uma palestra com o título, “A Trova e o atual Movimento Trovadoresco no Brasil”.  O palestrante foi o sr. J. Silva, que residia no Rio de Janeiro.

         Em 1972, com o apoio da Secretaria de Turismo da  Prefeitura Municipal de Vila Velha, (Prefeito Max Freitas Mauro e Secretário Antônio Guimarães) é realizado a nível nacional o Primeiro Concurso de Trovas  da UBT Vitória, com o tema Pelé.

         Foram recebidas mais de 500 Trovas, classificando-se em 1º Lugar a Trova do Trovador de Taubaté, São Paulo, Cesídio Ambrogi:

                   Que o Brasil todo enalteça,

                   tanto a Ruy, como a Pelé.

                   Se um o honrou pela cabeça,

                   o outro o honrou usando o pé.

         No mês de Maio de 1972 é realizado em Vila Velha um Curso Informativo de Jornalismo e Comunicação. São apresentadas palestras de Jornalistas e radialistas de Vitória no Auditório do Colégio dos Irmãos Maristas, em Vila Velha, em promoção da UBT, com mais de 300 participantes. Outros Cursos são então realizados, com êxito nas Comunidades de Vila Velha e do Estado.

         Em abril de 1973 é eleita uma nova Diretoria da UBT, com o poeta Edson Faiolli como Presidente. Edson, por circunstâncias várias, torna a entidade inativa, deixando a mesma de existir.

         A UBT Nacional cessa os contatos com o pessoal de Vila Velha, que sem estímulo, não se interessa mais na reorganização da entidade e o Espírito Santo fica restrito as Delegacias da UBT, em cidades do interior, como Alegre com Evandro Moreira e Cachoeiro de Itapemirim, com Byron Tavares. Em 2007, a UBT mantinha representante apenas em Cachoeiro de Itapemirim.

X

CLUBE DOS TROVADORES CAPIXABAS

         O Movimento Trovista voltou a ser reativado no Espírito Santo em 1980.

         Clério José Borges era estudante Universitário do Curso de Pedagogia na Universidade Federal do  Estado do Espírito Santo – UFES. Coube-lhe fazer um trabalho sobre Trovadorismo Medieval. O Trabalho era em grupo e foi apresentado posteriormente por Clério em Sala de Aula, na Universidade. Na mesma época Clério cursava Direito na UFES, mas interrompera o Curso para cursar Pedagogia.

         Para fazer seu trabalho, Clério recorreu a Biblioteca da Universidade do Espírito Santo e topou, por acaso, com o livro “O Trovismo”. Resolveu consultá-lo e observando que Eno Teodoro Wanke havia omitido as promoções da UBT de Vitória e Vila Velha, inclusive o Concurso de Trovas tema Pelé, escreveu para o autor do livro ocasião em que lhe pergunta como fazer para renovar o Trovismo localmente. Wanke desculpou-se da omissão, pois, em suas pesquisas, não tinha podido contar com os dados finais da UBT do Rio de Janeiro, já que esta o considerava, por motivos de ter se desentendido com Luiz Otávio, como “persona non grata”.

         No entanto, é preciso reconhecer que é a obra de Eno Teodoro Wanke — e só ela, já que até o momento ainda não apareceu nada tão profundo e detalhado como ela sobre o trovismo — que preservará para o futuro toda a história do trabalho de Luiz Otávio. Paulo Rónai chamou Wanke o “historiador e o teórico” do movimento. São coisas da literatura pátria…

         Quanto à indagação de Clério, e tendo em mente o então Clube dos Trovadores do Vale do Paraíba, sob a presidência de Francisco Fortes, respondeu: “Funde um Clube!”.

         Foi o que Clério fez, fundando a 1º de Julho de 1980 o Clube dos Trovadores Capixabas (CTC) lançando, ao mesmo tempo, um Concurso de Trovas, com os temas Vitória, Capixaba e Anchieta, que alcançou inúmeros participantes, tendo sido recebidas  mais de mil trovas.

         Para fundar a entidade, Clério não se fez de rogado. Convidou dois primos que apreciam poesias e entre um bate-papo e outro, fundou o CTC, organizando na hora um Estatuto e formando uma Diretoria. Clério Presidente; Luiz Carlos Braga Ribeiro como Secretário e José Borges Ribeiro Filho como Tesoureiro.  

         Com a divulgação na Imprensa Nacional do Concurso temas Vitória, Anchieta e Capixaba, Trovadores do Espírito Santo e do Brasil foram se filiando ao Clube. Logo uma nova Diretoria foi formada criando-se e preenchendo-se novos cargos.

         Parece, contudo, que o grande segredo do sucesso do CTC foi a constância. Clério mantinha uma constância, remetendo regulamento do Concurso para todos os endereços de Trovadores aos quais tinha acesso. Mandando Cartas e espalhando o nome do CTC no Brasil e Exterior. Logo foi criado um Jornal Mimeografado denominado Beija Flor, divulgando Trovas e Trovadores do Espírito Santo e do Brasil. São feitos inicialmente trezentos exemplares, remetidos pelos Correios para trovadores, cujos endereços eram fornecidos por Eno Teodoro Wanke e recolhidos por Clério, de livros, principalmente os livros de Antologia feitos por Aparício Fernandes de Oliveira que sempre traziam uma bibliografia dos Trovadores, com endereço no final.

         O imediato lançamento de um Concurso de Trovas a nível Nacional com os Temas Vitória, Anchieta, Capixaba, parece também ter sido a razão maior da divulgação e do sucesso do Clube dos Trovadores Capixabas. Segundo o Jornal “O Nacional”, de Passo Fundo – RS, de 30 de Julho de 1980:

         “O Concurso receberá Trovas até 15 de Setembro de 1980 e o primeiro colocado receberá uma Rosa de Prata.”

         Outros Jornais no Brasil e Exterior divulgam o Concurso e o CTC e o resultado passa a ser o recebimento de inúmeras Trovas, mais de mil, de centenas de Trovadores.

         O primeiro Concurso de Trovas do CTC teve o seguinte resultado.

TEMA VITÓRIA:

1º Lugar: Carolina Ramos, Santos, SP.

            Sempre amiga e hospitaleira.

            Se quem vem não quer deixar-te

            Vitória tu vais inteira

            No coração de quem parte.

2º Lugar: Aristheu Bulhões, Santos, SP.

            Pelo mar, sempre beijada,

            Vitória, bela e feliz,

            É linda jóia engastada

            No Mapa deste país.

3º Lugar: José Valeriano Rodrigues, Belo Horizonte, MG.

            Quando Vitória está calma,

            É a noite é plena de lua,

            A gente sente sua alma

            Na alma da gente da rua.

TEMA ANCHIETA:

1º Lugar: Rangel Coelho, Rio de Janeiro.

            Anchieta, pelo que diz

            Seu evangelho de luz,

            Foi o Francisco de Assis

            Das Terras de Santa Cruz.

2º Lugar: Aloísio Bezerra, Ceará.

            Lá no céu muito chorou

            Anchieta, e tem chorado,

            Que o índio, a quem tanto amou,

            No Brasil, só tem penado.

3º Lugar: Vicente Nolasco Costa, Vila Velha, ES.

            Vitória, dos meus encantos,

            Coração do meu planeta,

            Venero, dentre teus santos,

            O grande santo Anchieta.

TEMA: CAPIXABA:

1º Lugar: Zé de Ávila, Barretos, São Paulo.

            Na casa de um Capixaba

            Se a gente chega com pressa,

            A pressa logo se acaba

            Quando a conversa começa.

2º Lugar: João Figueiredo, Rio de Janeiro.

            Festa no Espírito Santo…

            Quem for mineiro não vai…

            – Você aí nesse canto…

            – Eu sou Capixaba… Uai.

3º Lugar: Izo Goldman, São Paulo.

            O Capixaba garante

            Que sua terra é um encanto:

            – “Espírito tem bastante…

            O que falta mesmo é… Santo…”

         A Comissão Julgadora do Primeiro Concurso de Trovas da Cidade de Vitória foi composta das seguintes pessoas:

Prof. Guilherme Santos Neves (Folclorista); Clério José Borges de Sant’Anna (Poeta); Zedânove Tavares Sucupira (Poeta); Geraldo Nascimento (Jurista e Poeta); Elmo Elton (Poeta) e Eno Teodoro Wanke (Ensaísta e Poeta).

Após o Concurso, Clério recebe várias cartas de Trovadores Brasileiros associando-se ao CTC, tanto que em 1981, um ano após a sua fundação o CTC já possuía mais de 500 sócios no Espírito Santo e no Brasil.

         Entrevistas são concedidas para diversas emissoras de rádio e Televisão e o CTC amplia seus horizontes com mais adeptos e admiradores.

         Em “A Gazeta”, de Vitória, de 13 de Julho de 1981 consta que:

         “Não se pode negar que há uma grande receptividade popular em torno da Trova. Pelo menos, poucos são os Concursos no Espírito Santo que conseguem ter mais de 500 concorrentes. E um Concurso de Trovas chegou a ter mil. Foi no ano passado quando se propuseram três temas: Vitória, Anchieta e Capixaba. (…) Trovadores de todo o Brasil se reuniram no Concurso e depois diversos outros Concursos foram feitos.”

         Para comprovar que o CTC nada tinha contra a entidade nacional UBT, antes pelo contrário, aconteceu que o seu surgimento provocou, por iniciativa de Clério Borges, o renascimento da UBT no Espírito Santo. Mantido contato com o Presidente Nacional da UBT na época, Carlos Guimarães, Clério é nomeado Delegado da UBT em Vitória.

         Logo cria um Jornal Mimeografado “Estandarte”, o qual passa a ser enviado para as seções da UBT em todo Brasil. Como Delegado em Vitória, Clério estimula os Trovadores a criarem as seções da UBT na área dos Municípios da Grande Vitória. Consegue a nomeação de Andrade Sucupira como Delegado da UBT em Vila Velha e estimula a criação da UBT de Vila Velha que passa a ser presidida pela Professora Valsema Rodrigues da Costa.

         Logo é fundada a seção da UBT em Vitória, sob a Presidência de Carlos Dorsch; Nealdo Zaidan passa a ser o Delegado da UBT. Todas as entidades  passaram a manter jornaizinhos  Trovistas e a animação era grande. Em 1981, Clério resolveu comemorar o primeiro aniversário do CTC, a 1º de Julho de 1981, com um Seminário.

         Foram convidados diversos Trovadores do Brasil inteiro, inclusive J. G. de Araújo Jorge, então Deputado Federal em Brasília, que não pode comparecer, pois não gostava de viajar de avião.

         Compareceram de fora uma Delegação de Campos (Walter Siqueira, Alves Rangel e Constantino Gonçalves), J.  Silva (da  UBT Nacional), Rodolfo Coelho Cavalcante, de Salvador  e Eno Teodoro Wanke, que compareceu com a esposa à sessão de encerramento. Na ocasião, Wanke fez uma palestra onde, em certa frase, dizia estar a UBT “encastelada em sua Torre de Marfim”. O Sr. J. Silva reclamou e a discussão se acirrou, com intervenções de Andrade Sucupira e outros. O Seminário teve grande repercussão. Rodolfo e o casal Wanke ficaram hospedados em casa da Trovadora Argentina Lopes Tristão e Eno aproveitou para gravar informações destinadas a completar a biografia de Rodolfo, que posteriormente lançaria num livro denominado “Vida e Luta do Trovador Rodolfo Coelho Cavalcante.”

         Rodolfo decidiu fundar o Clube Baiano de Trova, tão logo chegasse a Salvador, o que efetivamente fez. No ano seguinte, o CTC promoveu o Segundo Seminário e o comparecimento foi mais significativo ainda, com as seguintes Delegações:

         Recife: Valdeci Camelo, Presidente da UBT de Recife, Diva Veloso e J. Cabral Sobrinho, de Olinda.

         Salvador: Rodolfo Coelho Cavalcante e dois cordelistas;

         Niterói: o casal Torquata e Américo Lopes Fontoura, da UBT e da Academia Brasileira de Trova  e Jandyra Mascarenhas, (da UBT do Rio)

         Rio de Janeiro: Eno Teodoro Wanke e esposa Irma. (Eno Teodoro Wanke jamais faltou a nenhum dos Seminários do CTC até o ano 1999.)

         Ponta Grossa: Amália Max, Presidente da UBT local.

         Argentina: Jorge Piñero Marques

         Os Seminários do Espírito Santo (sempre organizados por Clério José Borges), provocam no Movimento Trovista Nacional  uma efervescência de tal ordem que no Terceiro, foi fundada a 2 de Julho de 1983, uma Federação Brasileira de Entidades Trovistas, a FEBET presidida por Eno Teodoro Wanke.

         No Quarto Seminário, Eno Teodoro Wanke propôs que esta nova fase do Movimento, iniciado com a fundação do CTC em 1º de julho de 1980, passasse a ser denominado de “Neotrovismo”. Ou seja, era o mesmo Trovismo renovado por uma nova geração de Trovadores.

         Os Seminários passaram a ser realizados anualmente, sempre em comemoração ao Aniversário do CTC, na primeira Semana de Julho. Até o Décimo foi realizado em Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra, na Grande Vitória. O Décimo Seminário foi realizado dentro do Palácio do Governo do Estado do Espírito Santo, o Palácio Anchieta, em Vitória.

         A partir do Décimo os Seminários passaram a serem realizados nas cidades do interior do Estado do Espírito Santo. O Décimo Primeiro foi realizado na cidade de Ibiraçu. O Décimo Segundo em Afonso Cláudio. O Décimo Terceiro em Guarapari. O Décimo Quarto Seminário foi realizado em Linhares. O Décimo Quinto em Domingos Martins. O Décimo Sexto em Jacaraípe, Serra. O Décimo Sete em Conceição da Barra. O Décimo Oitavo em Linhares. O Décimo Nono em Anchieta e o Vigésimo, novamente em Domingos Martins. A partir de 2000 foram organizados e realizados os Congressos Brasileiros de Poetas Trovadores, sendo 2001, novamente em Domingos Martins, em 2003 e 2005 em Nova Almeida, Serra, ES e 2006 na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro e em 2007, na Serra Sede.

         Nestes 27 anos (1980-2007), inúmeras promoções foram realizadas, dentre Concursos de Trovas; Palestras; Troveatas (Desfile dos Trovadores); Missa em Trovas, atingindo milhares de pessoas no Espírito Santo e no Brasil já que o exemplo do CTC, com suas palestras e Seminários espalhou-se pelo Brasil, surgindo Convenções, Simpósios, Congressos e Encontros Nacionais em todo o país: Brasília; Porto Alegre; Rio de Janeiro; São Paulo; Salvador; Recife; Olinda; Petrópolis – RJ; Corumbá – Mato Grosso do Sul; Magé – RJ; Maringá, PR; Porto Velho, Rondônia; Timóteo – MG e Magé – RJ.

         Segundo Eno Teodoro Wanke:

         “Durante sete anos o Seminário de Vitória foi um farol solitário iluminando o Trovismo. Chegou-se a suspeitar que fosse sempre assim…

         Mas não. Em Outubro de 1987, a rotina foi de novo rompida e outro foco de luz surgiu no Nordeste do país. Alba Tavares Correia, Presidente do Clube de Trovadores  da Associação de Imprensa de Pernambuco, realizou com absoluto êxito, o 1º Simpósio Nacional do Dia da Trova em Olinda, Pernambuco.

         E 1988, proclamado o Ano Adelmar Tavares por ser o centenário do seu nascimento, ocorre uma verdadeira explosão de encontros. As cidades de Timóteo (no Vale do Aço mineiro), Rio de Janeiro e Porto Alegre entram no páreo, cada uma delas com seu encontro, ampliando, assim, as oportunidades para que os Trovadores locais ou regionais possam assistir e contribuir com sua parcela de idéias.

         “Em 1989, mais duas cidades se incorporam à programação regular: Petrópolis (em Janeiro) e a longínqua, Porto Velho, Capital de Rondônia, em Março.”

         De 1989 a 1997 outros eventos são realizados em São Paulo; Rio de Janeiro; Brasília; Salvador, na Bahia; Recife e outras cidades, ampliando-se os horizontes do Movimento Neotrovista.

         A Trova firma-se, pois na Literatura Brasileira formando um grande movimento poético, o Trovismo, hoje denominado Neotrovismo.

         O Escritor Jorge Amado em entrevista a Maria Thereza Cavalheiro, Jornalista e Trovadora de São Paulo, diz:

         “Não pode haver criação literária mais popular, que fale mais diretamente ao coração do povo do que a Trova. É através dela que o povo toma contato com a poesia e sente sua força. Por isso mesmo, a Trova e o Trovador são imortais.”  Esta frase é amplamente divulgada pela FEBET e pelo CTC

         Já o Escritor Afrânio Peixoto diz:

         “A quadrinha popular é a nossa mais elementar forma de arte: Quatro versos, de sete sílabas métricas; Duas rimas, raramente perfeitas, às vezes apenas toantes no segundo e quarto verso; Que contém um estado fugitivo d’alma, um demorado aperto de coração, desejo, queixa, malícia, juízo ( … ) Comunicados  com sinceridade e simplicidade.”

         Segundo o   Folclorista Luís da Câmara Cascudo:

         “A Trova é forma mais íntima da poesia, a que iniciou nos Sertões (…)

         A Trova é uma confidência. É a fórmula mais popular do impulso poético.”

         Mário Linhares define a Trova assim:

         “A Trova,  na sua simplicidade e delicadeza, encerra a essência vital da Poesia, tudo o que faz a sua graça e encanto sem requinte, sem artifício nem deformação.”

         O Escritor,  Adelmar Tavares que  cultivou a Trova  com sabedoria como ninguém, chegando a ocupar uma Cadeira na Academia Brasileira de Letras por causa da Trova, assim se expressa:

         “A Trova Brasileira… A Cantiga do fundo da nossa alma! Esses quatro versos setesílabos que dizem mais que os poemas: – Bogari humilde, pequenino, a que recende o campo inteiro da nossa poesia.

         As rosas imperiais dos alexandrinos pompeantes. As begônias dos sonetos de dez sílabas. As Camélias das baladas – aí delas – não têm a graça e o cheiro dessas anônimas flores miúdas da alma popular. Colhê-las é encher as mãos de perfume! É inebriar-se de aroma! É  ter tonto o coração para cantar! É sentir que um luar se levanta dentro de nós com umas cordas misteriosas de amor, de saudade, de anseio e de súplicas.”

         De Adelmar Tavares:

                   Quem ama, para dar provas,

                        deve três coisas cumprir.

                        Tocar violão, fazer Trovas,

                        e havendo luar, não dormir…

Porque na Trova inocente

que tanto agrada à mulher,

a gente conta o que sente,

a gente diz o que quer…

         O Trovador Literário é aquele que sabe fazer a Trova, imprimindo espontaneidade, graça, beleza e sabedoria, tal qual a cultivaram poetas brasileiros de renome, como Fernando Pessoa:

                   O poeta é um fingidor,

                        finge tão completamente,

                        que chega a fingir que é dor

                        a dor que deveras sente.

         Olavo Bilac:

                        Mulher de recursos fartos!

                        Como é que está impenitente,

                        tendo no corpo dois quartos,

                        dá pousada a tanta gente?

         Menotti Del Picchia:

                   Saudade, perfume triste

                        de uma flor que não se vê.

                        Culto que ainda persiste

                        num crente que já não crê.

         Mário de Andrade:

                   Teu sorriso é um jardineiro,

                        meu coração é um jardim.

                        Saudade! Imenso canteiro

                        que eu trago dentro de mim.

         Cecília Meireles:

                        Os remos batem nas águas:

                        têm de ferir para andar.

                        As águas vão consentindo

                        – esse é o destino do mar.

         Carlos Drumond de Andrade:

                        Solidão, não te mereço,

                        pois que te consumo em vão.

                        Sabendo-te, embora, o preço,

                        calco teu ouro no chão.

XI

PRIMEIROS TROVADORES

         O Padre José de Anchieta é considerado o primeiro Trovador em Terras Capixabas. Anchieta nasceu em 1534, em São Cristóvão de Laguna, Capital de Tenerife, no Arquipélago das Canárias. Em Coimbra, Portugal, entrou para o Colégio dos Jesuítas em 1551. Desembarcou na Bahia, no Brasil, junto com Duarte da Costa e outros Jesuítas, a 13 de Julho de 1553. Esteve em São Vicente e na Bahia e por diversas vezes no Espírito Santo. Em 1594, já velho e enfermo foi nomeado Superior do Colégio do Espírito Santo, onde acabou morrendo na Aldeia de Reritiba, hoje Anchieta, a 9 de Junho de 1597. Foi sepultado na Igreja de São Tiago, já demolida e onde fica hoje o Palácio Anchieta, em Vitória, Capital do estado do espírito Santo.

         As poesias de Anchieta foram reunidas e publicadas pela Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em 1923. Eis uma Trova de Anchieta, retirada de um poema a Santa Inês:

         Oh! Cordeirinha tão linda

            Que brilha com lume novo

            Pois a vossa Santa vinda

            Dá prazer ao nosso povo.

         Padre Marcelino Pinto Duarte nasceu na Serra – ES a 18 de Junho de 1788. Faleceu em Niterói a 7 de Junho de 1860. Foi professor, Padre e Político no Espírito Santo e em Niterói, Rio de Janeiro. Eis uma de suas Trovas:

            Só a Deus, sublime e justo,

            É dado amor decifrar;

            Segredos do coração

            Quem é que pode contar?

         José Gonçalves Fraga, nasceu no Espírito Santo em 1793. Faleceu em Vitória, a 8 de fevereiro de 1855 aos 62 anos de idade:

            Teu nome escrevi na areia

            Ao pé do vizinho mar;

            As mesmas ondas quiseram

            Teu nome à praia beijar.

         Manoel da Silva Borges, nasceu em Viana, ES, em 1858, passando a residir na Serra. Era chamado de Poeta Prata. Trabalhava como lenhador.

Hoje faz já sete dias,

Que sumiu-se-me o pixoninho

Se ele não me aparece

Queixo-me do meu vizinho.

         Newton Ramos nasceu no Município de Cachoeiro de Itapemirim, na Fazenda Povoação no ano de 1892. Faleceu no Rio de Janeiro a 27 de março de 1963.

            Há qualquer coisa sublime

            No teu cantar que não cansa.

            Eu vou ficando mais velho

            E tu, cada vez, mais criança.

         Graciano dos Santos Neves nasceu em São Mateus, ES, a 12 de Junho de 1868. Formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Foi Presidente do estado em 1896. Faleceu em 1922.

            Mande o Governo “arrolhar”

            José Pinto de Araújo,

            Que ficou de rabo sujo

            Na questão do João Tovar.

         A Trova em questão feita por Graciano Neves é do gênero satírico e foi feita em resposta a um artigo de José Pinto Araújo.

         Maria Stella de Novaes nasceu a 18 de agosto de 1894, em Campos, RJ. Radicada no Espírito Santo desde criança onde se destacou nas letras sendo autora de mais de 50 publicações, entre as quais História do Espírito Santo.

            Dizem que a maior pobreza

            Do mundo, em dia presente,

            Não é falta de dinheiro

            É de vergonha, somente.

         José Dias Collares Junior, nasceu em Água Preta, distrito de Palmares, Pernambuco, a 16 de Janeiro de 1894 e faleceu em Vitória a 9 de Março de 1970.

            Não há no céu uma estrela,

            Tudo, em cima, se apagou.

            No mar as ondas suspiram,

            Como eu suspirando vou.

         José Coelho de Almeida Cousin nasceu em Sacramento, no Triângulo Mineiro, a 15 de Dezembro de 1897. Já falecido. Publicou vários livros entre os quais “Itamonte” (1932-1958) e “Poemas da Terra e da Vida” e “A Sagração da Mulher” (Pongetti – 1956 e 1959).

            Mulatinha já foi negra

            Na fazenda de café.

            Mulatinha virou branca.

            Que doçura que ela é!

         Nordestino Filho, pseudônimo de Raimundo Estevão Pereira, nasceu em Viçosa, CE, a 24 de Maio de 1900. Residiu no Espírito Santo desde 1925.

            Sempre que afago, me bem,

            As tuas mãos delicadas,

            As minhas ficam também

            Suavemente perfumadas…

         Hilário Segismundo Soneghet nasceu em Pau Gigante, hoje Ibiraçu, ES, a 23 de Março de 1904. Foi Prefeito (Interventor) da Serra. Faleceu em Vitória, a 3 de Fevereiro de 1969.

         Aqui vai meu parecer

            Com relação ao ciúme:

            Seria o aroma do amor,

            Se o amor tivesse perfume.

         Wolghano Barbosa nasceu no Município de Fundão, ES, a 5 de Setembro de 1914. Foi Escritor, Poeta e Promotor de Justiça em várias Comarcas do Espírito Santo. Faleceu em 13 de Junho de 1980.

É bem mais fácil a gente,

Na vida, prá ser feliz,

Nunca dizer o que sente,

Nunca sentir o que diz.

Osmar Barbosa nasceu em Vitória, ES, a 6 de Outubro de 1915. Foi professor de Português e Francês. Publicou diversos livros de Poesias e Dicionários pelas Edições de Ouro (Editora Tecnoprint – RJ). Faleceu em 1998.

Jamais encontrei espinho

Na sombra e na solidão,

Mas me dói viver sozinho

No meio da multidão.

Assumpção Botti nasceu em Vitória, ES, a 15 de Agosto de 1916. Foi revisor e redator de A Gazeta.

A minha alma se enternece

E todo o meu ser se renova,

Quando ajunto as mãos em prece

E rezo em forma de trova.

Alberto Isaías Ramires, nasceu em Vila Velha, ES, a 8 de Setembro de 1924. Editou várias publicações entre as quais, “Vitória-Sonho, Amor e Poesia”.

Saudade – Um berço vazio,

Uma lágrima, uma dor;

Coração sentindo frio

Longe da chama do amor…

Renato Bastos Vieira, nasceu em Vitória, ES, a 7 de Novembro de 1927. Premiado em diversos concursos de Poesias e Trovas.

Minhas trovas vão girando

Em torno de um mal infindo:

Eu, a fazê-las chorando;

Tu, a rasgá-las, sorrindo…

Marly de Oliveira nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, ES, em 1935. Publicou vários livros de poesias.

À brancura de tuas águas

Larguei meu corpo moreno,

E me cobriram de pronto

Com seu abraço sereno.

Trova muito antiga de Cachoeiro de Itapemirim, enviada por E-mail por Gladstone Rubim: A trova era anexada numa fotografia antiga que tem um burro em frente a um cartaz na rua.

Tal o progresso da terra,

Tal a sede de saber,

Que o próprio burro não erra,

Mostrando que saber ler.

Mimper (Mário Imperial) 1908. Parente, provavelmente avô do compositor Carlos Imperial.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nosso sol tem mais calor,

Nossa Lua mais romance,

Nossas mulheres, amor!…

         Pedro Geraldo Silveira

No burburinho da vida

O povo todo a correr,

O motivo que valida:

A vontade de vencer.

         José Augusto Lamego, nascido em Santa Cruz em 15/04/37

Teu beijo tem o sabor

Do mel de abelha fresquinho.

Peço a Deus em essa colmeia

Não fuja do meu caminho.

         Obed Emmerich. Nasceu a 25 de Janeiro de 1910, no córrego Jaracatiá, Município de Bom Jardim, Distrito de São José do Ribeirão, no Estado do Rio de Janeiro. Em 1932 veio para Cariacica. Em junho de 1945 ingressou na Prefeitura de Cariacica. Foi  Vereador e Prefeito de São Mateus de 1945 a 1967. Em 1949 volta à Cariacica onde foi vereador. Fundou o Ginásio São João Batista e o Jardim de Infância de Cariacica. Em 2 de agosto de 1980 ingressou como sócio do CTC. Faleceu no dia 29 de março de 1982, no Hospital São José em Vitória-ES.

 Essa noite tive um sonho

que não me sai da lembrança,

sonhei que vi a saudade

abraçada com a esperança.

Trova de Esdras Leonor à Ricardo Azevedo

Artista do pensamento,

Jurisconsulto imortal!

Ruy Barbosa – um monumento

Da Cultura Nacional!

         Alberto Isaías Ramires, Capitão R/1 do Exército (QOA). Transferido para a reserva em 1971. Nascido em Vila Velha, ES, a 8 de Setembro de 1924. Reside no Rio de Janeiro.

Amor, é imã entre os seres

E navalha de dois gumes.

Pode uni-los nos prazeres

Ou matá-los nos ciúmes.

         Alydio C. Silva. Nascido em Santa Cruz, ES, a 11 de abril de 1917.

Fiz poemas e sonetos

Escrevi cartas de amor,

Mas só me realizei

Ao tornar-me Trovador.

         Amaury de Azevedo, nascido na cidade de Alegre / ES.

Saudade… Doce tortura,

Espinho que se bendiz,

Flor que fere com doçura

E deixa a gente feliz.

Andrade Sucupira (José de), nascido em Pacatuba, Sergipe, a 22 de Junho de 1909. Jornalista profissional com registro confirmado na Delegacia Regional do Ministério do Trabalho, em Vitória, ES, com o N.º 55. Residiu vários anos em Vila Velha – ES.

Saudades dela? Talvez?

Se se pudesse voltar

Eu nasceria outra vez

Com a mesma mãe para amar.

         Antônio Tavares Sucupira, Nascido em Vitória, ES, a 12 de Outubro de 1956. Engenheiro Civil.

Minha casa tem fachada

Bonita e um jardim no centro,

Mas nela o que mais agrada

É a morena que tem dentro.

         Athayr Cagnin. Cirurgião Dentista. Residiu vários anos em Cachoeiro de Itapemirim onde foi Presidente da Academia Cachoeirense de Letras.

A noite, de estrelas novas,

Me torna mais cantador.

Lá vai um bando de Trovas,

Meu Clube do Trovador.

Não fique à porta da rua

Nem tenha medo, meu bem.

Vá entrando. A casa é sua

E o dono dela também.

         Almeida Cousin (José Coelho de). Nascido em Sacramento, Minas Gerais, a 15 de dezembro de 1897. Autor do livro “troveirinho”. Teve grande participação no Movimento Cultural Capixaba.

Pede-nos, Nosso Senhor,

Que amemos os inimigos

E eu pergunto se, a rigor,

Amamos nossos amigos…

         Elviro de Freitas. Nascido a 21 de março de 1914, em Vitória – ES. Médico especializado em oftalmologia e Otorrinolaringologia.

Mistura-se no Nordeste,

Onde existe jangadeiro,

E, muitos “cabra-da-peste”,

Os versos de “O Jardineiro”.

         Enéas de Almeida Ferraz, o Jardineiro. Residiu vários anos no bairro de Paul, em Vila Velha.

Não maldigas todo mundo

Por uma pena sofrida.

–          O sofrimento profundo

Nos faz entender a vida.

         Evandro Moreira. Advogado. Aposentado do Banco do Brasil. Fundou o Jornal “Mensagem” em Alegre – ES.

“Não pise na grama”. Acerta

o aviso que o moço viu.

E ele, estendendo a coberta,

Deitou na grama e dormiu.

Pestes, fomes, mendicâncias,

Não haveriam, nem guerra,

Se em todas as circunstâncias

Dominasse o amor na terra.

                   José de Andrade Sucupira Filho. Analista Químico. Jornalista. Nascido a 9 de março de 1954, em Vitória – ES.

O afeto conquistado

Nas terras por onde estive

Me faz grato e compensado

Das riquezas que não tive.

         J. Cabral Sobrinho. Militar. Nascido a 30 de março de 1935 em Afonso Cláudio – ES.

Aquelas cartas de amor

Que em fita azul amarrei,

Contam suspiros de dor

E lágrimas que eu chorei…

         Leonor Pereira. Nascida a 13 de Dezembro de 1915, em Guiomar, Cachoeiro de Itapemirim – ES.

Nunca irei jamais casar

Vou ficar celibatário,

Para eu não ouvir falar:

– Olha lá. Lá vai o Otário…

Geraldo Nascimento. Advogado já falecido. Nascido em Córrego d’água, Guaraná, Aracruz, ES, a 21 de Janeiro de 1938.

Pelos dois filhos que tenho

Obrigado, meu bom Deus…

Tornaram-se realidade

Os mais belos sonhos meus.

         Luiz Carlos Braga Ribeiro. Curso Superior de Tecnólogo Mecânico. Filho de José Borges Ribeiro e Maria Braga Ribeiro. Nascido a 11 de agosto de 1951, em Vila Velha , ES.

Vi morrer a pobre flor,

Entre espinhos, sufocada;

No jardim de nosso amor,

Que vejo? Espinhos, mais nada.

         Luiz Simões de Jesus. Bacharel em Direito. Nascido a 16 de maio de 1916, em Guarapari, ES.

Minha tristeza angustiosa

Virou gostosa alegria,

Quando passaste, formosa,

E me disseste bom dia!

         Mário Morcef Campos. Nascido a 26 de janeiro de 1913, em Eugenópolis, Minas Gerais. Residiu vários anos em Cachoeiro de Itapemirim-ES.

Amor é saudade-queixa

Das ondas perto do cais,

Um sofrimento que deixa

Desejo de sofrer mais.

         Paulo Freitas. Exerceu o cargo de Promotor Público em Vitórias e várias comarcas do Estado; Magistratura em Anchieta, Siqueira Campos, Colatina e Mimoso do Sul. Nascido a 28 de Janeiro de 1902, em Rio Novo do Sul, ES.

Meus poemas vão girando

Em torno de um mal infindo:

Eu, a fazê-los, chorando;

Tu, a rasgá-los, sorrindo…

         Renato Bastos Vieira. Bacharel em Direito. Secretário Municipal da Fazenda da Prefeitura de Vitória. Nascido a 7 de Novembro de 1927, em Vitória, ES.

Fonte de versos, prá mim,

É noite clara, de lua,

Com você pertinho, assim,

Neste banquinho de rua.

         Roosevelt da Silveira. Bacharel de Direito, nascido a 5 de setembro de 1947, em Alegre, ES. Residiu vários anos em Guaçui.

Promessas de amor! Inúteis

Ilusões da humana lida!

– Assim, de coisinhas fúteis

Vamos construindo a vida.

         Solimar de Oliveira. Jornalista e Funcionário Público Civil. Nascido a 5 de agosto de 1913, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Residiu em Cachoeiro de Itapemirim e Itapemirim, onde faleceu.

É  um cofre meu coração,

Escrínio sagrado e de ouro,

Nele trago co’afeição

A família, meu tesouro.

         Placidino Passos, Vila Velha – ES.

Do primeiro amor distante,

A saudade é tão fluente.

Tão sentida e tão constante,

Que molha os olhos da gente.

         Argemiro Seixas Santos, Ibes, Vila Velha, ES.

Ontem eu fui um botão

Hoje apenas um flor.

Amanhã serei uma rosa

Uma rosa cheia de amor.

         Kênia Fagundes Fernandes, São Mateus, ES

Se eu tivesse de escolher

Novo título hoje em dia,

Eu daria pra você

O de Miss Simpatia.

         Ailton de Almeida, Professor. Vila Velha – ES.

O pequeno beija-flor,

Tão alegre e bonitinho,

Bate as asas com ardor…

Suga o mel com seu biquinho.

         Isaura Ferreira. Nasceu em Angola, África e residia no Espírito Santo.

E, no futuro, a criança

Sem preconceitos, ciente,

Ajude com segurança

Nosso irmão deficiente!

         Valsema Rodrigues da Costa. É mineira, mas reside em Vila Velha há muitos anos já tendo sido Diretora de Cultura da Prefeitura local.

Eu já tive muitos sonhos

Mas um quero realizar…

De juntos tomarmos banhos

Nas lindas noite de luar.

         Vitor Nunes Rosa. Foi padre. Residia na Serra e atualmente é professor de Faculdades em Vitória-ES.

Na vida, tenho por norma

Pontificar minha meta,

Mantendo-lhe sempre a forma,

Sobre os pontos de uma reta.

         Mário Ribeiro. Médico. Residia em Vila Velha.

Eu desfruto a dor amarga

Do grande amor que existiu

No coração levo a carga

De um bom sonho que faliu.

         Valdemir Ribeiro Azeredo. Poeta, Trovador. Acadêmico da Academia de Letras e Artes da Serra e Sócio do CTC. Reside na Serra/ES.

Se pintor, eu pintaria

A vida com duas cores:

Um pingo azul de alegria

Num fundo roxo de dores.

         Assumpção Botti. Residia em Vitória, ES.

Minha vida está um trapo,

Se namoro há confusão.

Pareço mais guardanapo

Logo após a refeição.

         Albércio Nunes Vieira Machado. Poeta Trovador, sócio do CTC. Reside em Itapoã, Vila Velha, ES.

Dei-te um beijo primeiro

Para o segundo eu parto

Assim que dermos o terceiro

Iremos logo para o quarto.

         Albércio Vieira Machado. Já falecido. Foi sócio da UBT de Vila Velha. Residia no Ibes. Era o pai do trovador Albércio Nunes Vieira Machado.

Tentei falar da verdade

Ninguém no mundo me ouviu

E ela sem dó nem piedade

Juntou seus trapos, sumiu.

         Humberto Del Maestro. Reside em Laranjeiras, Serra, ES.

Ver que neste mundo afora

Venha sempre a solução

Prá eu sentir vontade agora

De doar o meu coração.

         Márcia Borges Machado. Residia em Nova Brasília, Cariacica, ES.

Se pudesse a piedade

Tornar meu corpo perfeito

Eu preferia, em verdade

Continuar com defeito.

         Daísa de Lacerda Gomes. Residia no bairro de Ataíde, Vila Velha – ES. Deficiente visual.

A gente liga, ele chama,

Do outro lado não tem gente.

Consumidor que reclama,

Fica mais pobre, indigente.

         Carlos José Cardoso. Residia na Praia do Suá, Vitória, ES.

Tenho gostado de ler

O seu jornal “Beija Flor”

Que bem pode merecer

O mais sincero louvor!

         Carlos Teixeira de Campos. Residia em Vitória, ES.

Que mimo, estás ao meu lado,

tão próxima, tão fagueira,

enquanto eu embaraçado

fico mudo a noite inteira.

            Nesta casa tão singela

            onde mora um trovador

            é a mulher que manda nela

            porém nos dois manda o amor.

         Clério José Borges. Reside em Eurico Salles, Serra,ES.

XII

CONCURSO DE TROVAS TEMA SAÚDE E PAZ 2007

O Clube dos Trovadores Capixabas, CTC divulga o Resultado Oficial e definitivo do Concurso Nacional e Internacional de Trovas de 2007, com  o tema Saúde e Paz.

O Concurso foi iniciado em 1º de Março e encerrado no dia 30 de Julho de 2007. Foram recebidas 805 Trovas das quais 199 Trovas foram selecionadas e enviadas para a Comissão Julgadora, composta de dois Trovadores de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro e três Trovadoras de Belo Horizonte, MG. 

A premiação foi programada para o dia 04  de Outubro de 2007, (Dia de São Francisco de Assis), durante a Sessão Solene em comemoração ao Dia Municipal do Trovador no Município da Serra,ES, na área Metropolitana da Grande Vitória, ES, com início às 19 horas. Local – Câmara Municipal da Serra – Serra sede, ES. Na ocasião será também realizada a ABERTURA SOLENE do V CONGRESSO BRASILEIRO DE POETAS TROVADORES. As Trovas vencedoras são:

1º Lugar:

Vivo a vida intensamente

e sonho, ao fim da jornada,

ter na Paz do meu poente

a saúde da alvorada…

         Edmar Japiassú Maia / Rua Mara de Lacerda, 119, Casa 9, Estácio, Rio de Janeiro, RJ – 20. 250 – 001.

2º Lugar:

Se a saúde nos for dada

e se a Paz for conseguida,

digamos: Muito Obrigada,

num Hino de Amor à Vida.

         Delcy Rodrigues Canalles /   Rua Duque de Caxias, 707 / 203, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 90.010 – 282.

3º Lugar:

Tão logo o dia amanhece

no calor que o sol nos traz,

em meu peito arde uma prece

por mais luz, saúde e paz!

         Josafá Sobreira da Silva / Rua Alexandre Ramos, 635 / 1101 / Jacarepaguá – Rio – RJ / 22. 735 – 140

4º Lugar:

Um velhinho, maltrapilho,

cedendo parte do pão,

ouviu do pobre andarilho:

– Saúde e Paz, meu irmão!

         Abílio Kac / Rua Anita Garibaldi, 18 / Apt. 301 – Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, 22.041 – 080.

5º Lugar:

Sente-se bem mais prazer

em tudo quanto se faz,

quando se pode viver

com muita saúde e paz!

         Genilton Vaillant de Sá / Avenida Rio Branco, 1626 – Edf. Piaget, 102 – Praia do Canto – Vitória – ES / 29.055 – 642.

6º Lugar:

A branca Pomba da Paz

quer saúde, quer abrigo

e o mundo não é capaz

de tecer-lhe um ninho amigo!

         Sônia Maria Ditzel Martelo / Rua Cruz e Sousa, 290/Ponta Grossa – Paraná – 84. 015 – 420.

7º Lugar:

Para ter Saúde e Paz

basta usar a inteligência:

fazer o bem mais e mais

e ter pura a consciência.

         José Viana Gonçalves / Rua Salvino Soares, 51 – Parque Fundão, Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro –  28. 060 – 670.

8º Lugar:

No baú das incertezas,

procuro a felicidade

e a encontro em três riquezas:

Paz, Saúde e Liberdade.

         Renata Paccola / Rua Cafelândia, 53 – São Paulo – SP / 01255-030.

9º Lugar:

Regime, a moça fazia

sem nem ligar pra saúde.

Em paz, na foto sorria.

Esbelta, em um ataúde…

         Sérgio de Mesquita Serra / Av. Gonçalo Rollemberg Leite, 1882 / 1003 – Ed. Marajó – Suíça – Aracaju – Sergipe

49.050 – 370.

10º Lugar:

Quem tem visão concentrada

na bondade contumaz,

merece vida alongada,

plena de Saúde e Paz!…

         Hermoclydes Siqueira Franco / Caixa Postal, 97.096, Lumiar, Nova Friburgo, RJ, 28.616-970.

11º Lugar:

Minha ambição, eu explico:

É um sonho de trovador…

– Em três itens, ficar rico –

Saúde, paz e no amor!

         Francisco Neves de Macedo / Rua Ribeirão Preto, 218 – Gramoré, Natal, RN, 59.135-550.

12º Lugar:

Saúde é bem precioso,

mas pouco vale se a gente

mantém o corpo ocioso

e despreza a Paz na mente.

         Nazareno Tourinho / Rua Saldanha Marinho, 48 – Praça da Bandeira – Belém, Pará – 66.015-030.

13º Lugar:

Quando você foi embora,

minha saúde acabou,

porém o que me apavora

é a Paz que você levou…

         Renato Alves / Rua Flamínia, 596, Vila da Penha, Rio, RJ, 21.221-240.

14º Lugar:

No presente ou no porvir,

rico ou pobre, tanto faz,

pode a gente usufruir

muito amor, Saúde e Paz.

         Elmar Joenck / Caixa Postal, 15.094 – Centro Cívico – Curitiba, PR, 80.811-970.

15º Lugar:

 A vida as vezes nos traz,

tanta tristeza e inquietude,

que perdemos nossa paz

e quase sempre a Saúde!

         Sônia Maria Sobreira da Silva / Rua Alexandre Ramos, 635 – Apt. 1101 – Jacarepaguá – Rio  – RJ – 22.735-140.

16º Lugar:

Nesta terra, qual tesouro

nos traz só felicidade?

– Não é fama, não é ouro…

É Paz, Saúde, amizade!!!

         Laérson Quaresma de Moraes / Rua Henrique Oswald, 07, Jardim Profa. Tarcilla,  Campinas, São Paulo, 13.087-393.

17º Lugar:

Saúde e Paz, meu irmão,

são sentimentos diversos,

que crescem no coração

e inspiram os nossos versos!

            Delcy Rodrigues Canalles – RS

18º Lugar:

Por plantar o mais que pude

o amor, que benesses traz,

junto à safra de saúde,

colho a fartura de Paz!

               Edmar Japiassú Maia – RJ

19º Lugar:

No morro quando escurece,

luzes e estrelas unidas,

pedem a Deus numa prece,

Saúde e Paz para as vidas.

         Deny de Paula Barros Pereira/ Rua Pio Dutra, 131 Apt. 201, Freguesia, Ilha do Governador – Rio de Janeiro – RJ, 21.911 – 200.

20º Lugar:

Eu quisera que a Saúde,

como a Paz, fosse encontrada,

para que toda a inquietude

fosse, de nós, afastada!

         Delcy Rodrigues Canalles – RS

21º Lugar:

Tanta gente que se ilude

com drogas – prazer fugaz –

Comprometendo a Saúde

e tirando a própria Paz!

         José Henrique da Costa / Rua Ernandes de Barros, 14, Casa 5 – Comendador Reis, Magé, RJ, 25.900-000.

22º Lugar:

Na vida, só é capaz

de enfrentar-lhe a inquietude

quem tiver Saúde e Paz,

pois não há Paz sem Saúde.

          Josafá Sobreira da Silva, RJ.

23º Lugar:

Cuidados com a Saúde

começam na concepção

com Paz, atenção amiúde

e boa alimentação!

         Maria Lúcia de Godoy Pereira – Rua Rio de Janeiro, 909/206 – Belo Horizonte – MG – 30.160-041.

24º Lugar:

Meu amor brigou comigo

não quer voltar nunca mais

só quero como castigo

ter muita Saúde e Paz.

         Maria do Rosário Silva Santos – Av. Nicolau Von Schingen, 200 Apt. 1002 – Edf. Tietê – Mata da Praia – Vitória – ES – 29065-130.

25º Lugar:

A carente Juventude,

que acolhe o sonho fugaz,

busca o vigor da Saúde:

-Eu busco a Saúde e a Paz!

         Edmar Japiassú Maia

            Rio de Janeiro – RJ

MENÇÃO HONROSA ESPECIAL

Meu corpo é bem forte e rude,

e tudo me satisfaz.

Gozo de boa saúde,

meu coração vive em Paz

            Gualberto Bruno de Andrade

Avenida Praiana, 602, Apt. 107 – Guarapari, ES – 29.216-090.

FIM

SELO DOS CORREIOS - FOTO DE CLÉRIO JOSÉ BORGES - 70 ANOS
SELO DOS CORREIOS – FOTO DE CLÉRIO JOSÉ BORGES – 70 ANOS

ESTA OBRA É DE 2007.

BIOGRAFIA ATUALIZADA EM 2021:

Clério José Borges pertence ainda a Academia das Artes, Cultura e Letras de Marataízes e do Estado do Espírito Santo (Academia Marataizense de Letras), da Cidade de Marataízes, no sul do Estado; Academia Mateense de Letras, AMALETRAS, da cidade de São Mateus; Academia Iunense de Letras, da cidade de Iúna, na região do Caparaó; Acadêmico Correspondente, Cadeira 202, da Academia de Letras de Cachoeiro de Itapemirim. É Associado do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e do Clube de Intelectuais Franceses. Pertence ainda ao Movimento Poético Nacional, MPN, com sede no Estado de São Paulo; Sociedade de Cultura Latina do Brasil, com sede em Mogi das Cruzes, SP; Casa do Poeta Brasileiro, Poebras, de Porto Alegre, RS; Academia Petropolitana de Letras, da Cidade de Petrópolis, (RJ); Academia Brasileira da Trova, com sede no Rio de Janeiro e Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas, ALCEAR, bem como inúmeras outras entidades, Associações e Academias de Letras e Artes no Brasil e no Exterior.

FUNCIONÁRIO PÚBLICO ESTADUAL: ESCRIVÃO DE POLÍCIA E AS

MEDALHAS DE BRONZE, PRATA E OURO DA POLÍCIA CIVIL

1975 – No ano de 1975 fez Concurso Público para o cargo de Escrivão de Polícia. Ingressou no Serviço Público em 1975. Classificado em 1º Lugar em Concurso Público para o cargo de Escrivão de Polícia do Quadro Permanente do Serviço Civil do Poder Executivo do Estado do Espírito Santo, Certificado de Habilitação nº. 01, datado de 03 de janeiro de 1975, data de homologação da classificação. Nomeação no Estado através do Decreto Nº. 151 – P, de 04 de março de 1975. Ingressou no Serviço Público Estadual a 28 de maio de 1975. Durante o período de atuação como Escrivão, Clério recebeu as Medalhas de BRONZE, PRATA E OURO, respectivamente por 10, 20 e 30 anos de Serviços.

Clério José Borges aposentou-se como Escrivão de Polícia Civil do Estado do Espírito Santo, pela Portaria N.º 081, de 18 de janeiro de 2011, publicada na página 05 do Diário Oficial do Estado do Espírito Santo do dia 20 de janeiro de 2011, onde consta, “aposentadoria por tempo de contribuição, a partir de 17 de setembro de 2010, (…), computados 37 anos, 02 meses e 19 dias de Tempo de contribuição. (…) Processo 01901621”.

Clério José Borges foi Jornalista dos Jornais A TRIBUNA e O DIÁRIO, de Vitória, ES, onde atuou de Foca a Chefe de Reportagem se especializando como comentarista e crítico de Filmes. Por designação do Governador do Estado foi Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Cultura do Espírito Santo, de 1989 a 1993, onde foi eleito e atuou como Secretário e Vice-presidente do CEC-ES. Foi Conselheiro Suplente do referido Conselho de 1993 ao ano 2000. No dia 23 de março de 2000, toma posse como membro colaborador da Câmara de Literatura do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Espírito Santo, com mandato de dois anos, encerrando em 2002, sua participação no referido Conselho.

Por designação do Prefeito Municipal foi Conselheiro Titular da Câmara de Literatura do Conselho Municipal de Cultura da Serra, de 24/09/1997 a 20/07/2012, ou seja, por 14 anos, 09 meses e vinte dias. No dia 31 de julho de 2019, Clério José Borges foi reconduzido ao cargo de Conselheiro Titular da Área de Literatura, com mandato de 2019 a 2021. Clério esteve envolvido em lutas comunitárias desde 22/04/1979 quando foi um dos organizadores da Associação de Moradores do bairro onde reside, tendo sido o primeiro Vice-Presidente e, atuado posteriormente novamente como Vice-Presidente, Diretor de Jornalismo e Secretário Geral.

Clério é Ministro da Palavra, da Comunidade Católica São Paulo, Paróquia São José Operário, desde dezembro de 2009 e pertence a Pastoral Familiar (preparação de noivos para o casamento junto com sua esposa Zenaide e Dra. Magnólia Pedrina Sylvestre) da referida Comunidade e Paróquia, desde 19 de março de 2005. É Senador da Cultura, representando o Espírito Santo perante o Congresso da Sociedade de Cultura Latina do Brasil, desde 11 de maio de 2004. No dia 27 de março de 2015, na Cidade de São Mateus recebeu da AMALETRAS, a Comenda da ordem “Cecília Meireles”. Clério é COMENDADOR com título conferido pela Assembleia Legislativa, desde o dia 07 de julho de 2015, quando foi agraciado com a Comenda Mérito Legislativo Rubem Braga, tendo recebido o título de Comendador, por indicação da Deputada Estadual Luzia Toledo.

Na cidade de Itabira, Estado de Minas Gerais, recebeu os seguintes Troféus: 1 – Troféu Carlos Drummond de Andrade. Recebido no dia 05 de junho de 2010, como Personalidades do ano de 2010. 2 – Troféu Pedro Aleixo, como Personalidade Brasileira Notável do ano de 2012, no dia 10 de março de 2012. 3 – No dia 06 de abril de 2013, Clério José Borges recebe em Itabira o Troféu Personalidade Notável 2013. 4 – No dia 24 de outubro de 2015, na 50ª festa dos “Destaques do Ano”, Clério recebeu o Troféu Carlos Drummond de Andrade, Edição Especial ouro, 50 anos. 5 – No dia 22 de outubro de 2016, Clério José Borges foi homenageado com o Troféu Machado de Assis, como intelectual do ano de 2016. Recebeu ainda na mesma cidade de Itabira em anos diferentes, os Troféus Castro Alves, João Guimarães Rosa e Madre Tereza de Calcutá.

Clério José Borges possui onze livros publicados, sendo alguns individuais e outros como organizador de Coletânea e Antologias, destacando-se os livros, “Serra, Colonização de uma Cidade”; Trovas Capixabas; Trovadores dos Seminários da Trova; Trovadores Brasileiros da Atualidade; O Trovismo Capixaba; Alvor Poético; Serra em Prosa e Versos/Poetas e Escritores da Serra; Origem Capixaba da Trova e História da Serra (3 Edições) e a obra em forma de Livreto da Literatura de Cordel, “O Vampiro Lobisomem de Jacaraípe”; Publicou ainda “Dicionário Regional de Gírias e Jargões”, obra realizada graças a Gírias e Jargões coletados através do seu trabalho como Escrivão de Polícia. Organizador de várias Coletâneas e Antologias, dentre os quais, “Quinta Cult”, um Sarau Poético realizado durante dois anos nos Shoppings Mestre Álvaro e Montserrat, na Serra, ES e, “Trovas Capixabas”. Também participante de várias Coletâneas e Antologias, entre as quais, “Poemas da Pérola Capixaba – Antologia – Volume III”, da Academia Marataizense de Letras, da cidade de Marataízes, (águas que correm para o mar), no sul do Espírito Santo e “Trovadores Capixabas”, este último em parceria com os Poetas Matusalém Dias de Moura, Geraldo Fernandes e Albércio Nunes Vieira Machado. Atuando como escritor, foi contemplado com Medalhas, Comendas, Diplomas e importantes homenagens, entre as quais, a medalha de mérito cultural “Afonso Pena” e o título de acadêmico imortal, ambos concedidos durante cerimônia em Belo Horizonte, presidida pelo Dr. Mário Carabajal, presidente fundador da Academia de Letras do Brasil.

O livro “História da Serra”, de Clério José Borges, que conta a Colonização da Cidade da Serra, no Estado do Espírito Santo foi eleito em 1988, o Melhor Livro do Ano e a premiação foi recebida por Clério José Borges, em solenidade ocorrida no dia 08 de maio de 1999, no Teatro Municipal Paschoal Carlos Magno, localizado no Centro Histórico da Cidade de Mogi das Cruzes, no Estado de São Paulo. Organizador, desde 1981 dos Seminários Nacionais da Trova e dos Congressos Brasileiros de Poetas Trovadores. Detentor de Diversos Títulos, Diplomas e homenagens.

MISSA EM TROVAS. CONGRESSO DE TROVADORES DE IÚNA ES
MISSA EM TROVAS. CONGRESSO DE TROVADORES DE IÚNA ES

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